Rusty Brown – Resenha (Quadrinhos na Cia.)

Rusty Brown imerge o leitor em uma narrativa visual e textual repleta de experimentos

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Mais um fim de ano chegando e as listas de melhores quadrinhos do ano começam a pipocar por todo canto. Bom, podemos dizer que Rusty Brown deveria ser presença obrigatória em qualquer top quadrinhos de 2021.

Um dos principais – e mais inusitados – lançamentos da Quadrinhos na Cia em 2021, e talvez seu grande destaque neste último trimestre, Rusty Brown é a mais recente obra de Chris Ware (Jimmy, Corrigan, Building Stories), um nome em ascensão no cenário das graphic novels e que deixa sua marca pelas narrativas pouco convencionais e o traço colorido e geométrico que o tornam um autor único e destacado.

Sinopse de Rusty Brown

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Somos apresentados a quatro histórias interligadas com personagens centrados em um tradicional colégio estadunidense em Omaha, Nebraska. Na primeira, que se passa num único dia na escola, nos anos 1970, Ware nos apresenta ao jovem e solitário Rusty e aos irmãos Alice e Chalky White. A HQ então passa a transitar entre flashbacks para navegar sobre os outros personagens.

Na segunda, o pai de Rusty, o infeliz professor Woody Brown, é quem passa a ocupar o centro da trama. Ware nos conduz à adolescência de Woody, que precisa lidar com uma conturbada história de amor e o início de sua carreira de escritor de ficção científica. No terceiro eixo do livro, encontramos a história do bad boy Jordan Lint, o terror de Rusty, desde seu nascimento até sua morte. Por fim, o norte da trama é enfim apontado para Joanne Cole, uma professora negra numa escola predominantemente branca.

Estes personagens formam uma rede de interação indireta que se cruza diversas vezes ao longo das narrativas, de forma sútil, inteligente e que é costurada pelo autor sem que sequer nos demos conta.

Rusty Brown é uma experiência única para cada leitor

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Podemos começar dizendo que Rusty Brown é um quadrinho experimental por seu caráter gráfico único: ao colocar as mãos no exemplar publicado pela Quadrinhos na Cia., o leitor ficará desnorteado com o trabalho de edição mas, sobretudo, com a inventividade de Chris Ware. A graphic possui uma luva versátil e ajustável, um empacotamento tal qual um material escolar, e é, por si só, uma obra de arte como poucas.

Ware se utiliza dos elementos geométricos e das cores e letramento de um modo muito inteligente, colocando o leitor sob o olhar dos personagens e do texto em questão. Nada, nada mesmo está ali por acaso; há constantes quebras de quadro, redirecionamentos e até leituras simultâneas, que fazem o leitor navegar pelas sequências de quadrinhos à sua própria maneira e, consequentemente, se relacionando com a obra e recebendo dela uma leitura sem igual.

Mas, além da criação gráfica e visual, Ware cria uma densidade única e até mesmo inesperada para os seus protagonistas. Sim, Rusty leva o nome do quadrinho, mas os outros personagens são tão ou mais profundos e necessários que o garoto. Ao navegar sobre a vida e legado das figuras que cercam a vida do menino – seu pai, professor; o garoto que lhe faz bullying; e sua professora – Ware nos conecta a figuras comuns que, certamente, fizeram parte de nossa vida escolar.

Mostrar princípio, meio e fim da vida dessas pessoas, suas aspirações, sonhos, frustrações e desejos mais ocultos, cria uma conexão capaz de nos fazer olhar com maior empatia com o próximo – talvez aquele “professor esquisitão” tenha um motivo para ser assim, por exemplo. Ware possui um texto humano e impactante, apresentando histórias repletas de sentimento. Gera ojeriza, pena, simpatia. Compramos seus personagens e queremos saber mais sobre eles. Transforma a história banal, de pessoas como nós, em algo interessante e até mesmo indispensável.

Vale a pena?

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Rusty Brown é um quadrinho mágico sem necessitar de fantasia. Uma HQ que mostra que uma escola – ou qualquer outro ambiente – reserva tantas histórias quanto se possa imaginar. E que cada história é um universo, capaz de conectar-se a outras mas, que como qualquer outra, tem início, meio e fim. Golaço da Companhia das Letras em apresentar-nos essa verdadeira obra de arte.

E não se deixe enganar pelo caráter visual, que pode sugerir uma história infantil ou juvenil: Rusty Brown é terrivelmente adulto. Uma obra que possui, inclusive, alguns quadros explícitos de sexo e violência (não são muitos, mas existem) e que possui algumas passagens que são um verdadeiro soco no estômago. Mas daqueles que a vida nos dá, e que são necessários a serem retratados.

Esperamos que haja uma continuação! Enquanto isso, você pode adquirir a graphic já à venda nas principais livrarias.

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