Home Anime e Mangá Itachi é vilão, herói ou vítima em Naruto? – Discussão

Itachi é vilão, herói ou vítima em Naruto? – Discussão

Naruto é um mangá incrível, de sucesso absoluto no Japão, Brasil e mundo. Marcante na vida de muitos, traz consigo uma grande quantidade de personagens com muitas camadas, histórias profundas, política e guerra. O mundo do ninja loiro levanta muitas pautas importante mesmo no mundo atual e toca em temas sensíveis, não temendo abordar a ambiguidade que muitos deles possuem. Das mais controversas e aquela que divide a comunidade, a história de Itachi Uchiha, irmão mais velho do protagonista Sasuke Uchiha, causa discussões acaloradas e que abordam temas que vão muito além do simples herói ou vilão. Vamos discutir todas as camadas desse tema, afinal: Itachi é vilão, herói ou vítima em Naruto?

Antes de mais nada, existem aqueles que têm sua opinião formada sobre o assunto. Tratam o tema como branco no preto e ignoram todo o contexto. Abordaremos essas questões mais à frente, mas entre com a mente aberta – tanto para concordar, quanto discordar. Afinal, não é tão simples quanto parece.

Personagem nascido para ser um choque

No começo, Itachi era escrito como o antagonista perfeito para moldar o ódio do Sasuke.
Com o tempo, a narrativa cresceu, as camadas políticas do mundo ninja ficaram mais densas e Kishimoto transformou o vilão em algo muito mais trágico e moralmente ambíguo.
Há quem diga que isso foi retcon; outros defendem que sempre foi planejado.

Independente disso, o impacto existe: o mistério em torno de Itachi foi essencial para a evolução do Sasuke e para revelar o lado sujo da Vila da Folha.

O Contexto Político: Um Mundo à Beira do Caos

Dentro da obra, o massacre é apresentado como uma “solução amarga” para um golpe iminente dos Uchiha.
De um lado, uma vila traumatizada pela Nove Caudas, desconfiando do clã dos olhos amaldiçoados.
Do outro, um povo que cansou de ser tratado como suspeito dentro de sua própria casa.

No centro do tabuleiro, dois jogadores:

  • O Terceiro Hokage, buscando uma negociação pacífica.
  • Danzō, acreditando que só a força bruta salva a vila.

Itachi, aos 13 anos, fica preso entre essas forças — sem maturidade, apoio ou entendimento real das consequências.

Existiam Alternativas ao Massacre?

Este é o, talvez, o maior ponto contrário ao personagem. A resposta é direta e simples: sim.

Dentro das próprias regras estabelecidas dentro do universo de Naruto, haviam alternativas viáveis para lidar com assunto, ao invés de apelar para um massacre silencioso. A primeira alternativa, talvez a mais óbvia, seria a transparência. Itachi possuía acesso direto ao alto escalão da vila e confiança do Terceiro Hokage. Expor o plano de golpe de forma completa e antecipada poderia ter mudado completamente o rumo dos acontecimentos. Hiruzen Sarutobi já demonstrava inclinação à negociação — o problema nunca foi falta de vontade política, mas sim a atuação paralela e clandestina de Danzō.

E é justamente aí que entra outra possibilidade crucial: a denúncia. O roubo do olho de Shisui não foi apenas um ato isolado, mas uma ruptura grave dentro da própria hierarquia da vila. Revelar esse evento não só enfraqueceria Danzō politicamente, como também colocaria em xeque a legitimidade de qualquer ação extrema proposta por ele.

Ainda havia outras formas, como envolver outros clãs na discussão – o que poderia gerar pressão para evitar soluções extremas. Ou quem sabe evacuar civis e inocentes em caso de confronto inevitável, o que não seria difícil considerando as habilidades de Itachi e os recursos da Ambu.

Enfim, a conclusão é dura, mas bem obvia: existiam sim alternativas ao massacre, o que formenta mais a discussão do que simplesmente se ele era a solução ou não.

Itachi é vilão, herói ou vítima? Antes de tudo, era uma criança

Existe um ponto em que qualquer análise sobre Itachi deixa de ser sobre estratégia ou moral abstrata e passa a ser sobre algo muito mais simples — e muito mais desconfortável: ele era uma criança.

Aos 13 anos, Itachi não era um agente plenamente consciente tomando decisões frias e calculadas. Ele era um adolescente formado dentro de um ambiente de guerra, moldado desde cedo para enxergar o mundo como um campo de batalha permanente. Nesse tipo de contexto, a infância não é apenas encurtada — ela é substituída por uma lógica de sobrevivência.

Crianças-soldado não pensam como adultos. Elas internalizam discursos prontos, absorvem responsabilidades que não compreendem completamente e passam a acreditar que carregar o peso do mundo é uma obrigação pessoal. No caso de Itachi, isso é ainda mais extremo: ele não só foi exposto à violência desde cedo, como também foi constantemente reforçado como um “gênio”, alguém especial, alguém que deveria ser capaz de resolver aquilo que outros não conseguiam.

Esse tipo de expectativa não amadurece — ele distorce.

A morte de Shisui agrava tudo. Não é apenas a perda de um amigo, mas a perda da única referência emocional e moral que ainda equilibrava Itachi. A partir dali, o que sobra é um adolescente isolado, pressionado por autoridades, lidando com luto e tentando desesperadamente encontrar um sentido para o sacrifício que acabou de testemunhar. Evitar a guerra deixa de ser uma escolha racional e passa a ser uma necessidade quase obsessiva — uma forma de justificar tudo o que já foi perdido.

A atuação de Danzō

É nesse estado mental que Danzō atua. E é importante deixar claro: isso não é persuasão comum, é manipulação direcionada a alguém vulnerável. Ele não oferece opções reais, apenas enquadra a situação como um dilema impossível, onde qualquer alternativa ao massacre leva ao caos absoluto. Para um adulto, isso já seria questionável. Para um adolescente traumatizado, soa como verdade incontestável.

Quando Itachi toma sua decisão, ele não está operando com clareza moral. Ele está reagindo a medo, culpa e responsabilidade distorcida. Ele acredita, genuinamente, que está escolhendo o “mal menor”, mas não porque avaliou todas as possibilidades — e sim porque foi levado a acreditar que não existiam outras.

É por isso que, fora da lógica ficcional, Itachi se aproxima muito mais de uma vítima do que de um vilão. Ele não representa alguém que fez uma escolha monstruosa por convicção própria, mas alguém que foi colocado em uma posição onde qualquer escolha já era, por si só, uma falha do sistema que o formou.

No fim, o que a história mostra não é apenas o peso de uma decisão — mas o peso absurdo de permitir que uma criança seja responsável por ela.

Por quê você já tinha decidido antes de ler?

A prova de que o assunto é complexo e certas opiniões soam absurdos aos nossos olhos – inclusivo ao ponto de julgarmos as pessoas baseado nelas – envolve nossa régua moral. Dependendo do framework que nos guia, a forma como enxergamos o mundo e as situações cinzentas dele, podemos chegar a diferentes conclusões sobre determinados assuntos. Assim, muitos usam da empatia – “eu faria diferente no lugar dele sendo um adolescente traumatizado pela guerra?” -, outros usam da vida acima de tudo – “não existe justificava para tirar uma vida!”.

Cada um desses pontos de vistas, mudam a forma como podemos enxergar as atitudes de Itachi, tanto pro bem, quanto pro mal.

Utilitarismo: o herói necessário

Talvez a principal base de quem defende as ações do personagem. O utilitarismo julga ações com base em suas consequências. O que importa não é o ato em si, mas o saldo final de sofrimento e bem-estar.

Sob essa ótica, a decisão de Itachi ganha uma lógica brutal, mas coerente: sacrificar um grupo menor para salvar um número muito maior de vidas. Se o golpe Uchiha levaria a uma guerra civil, e essa guerra poderia escalar para um conflito entre nações, então o massacre funciona como uma contenção preventiva.

O ponto central aqui não é que a ação seja “boa”, mas que ela seja menos pior que as alternativas.

Nesse sentido, Itachi não é visto como um vilão, mas como alguém que assumiu um fardo que ninguém mais quis carregar. Ele se torna um herói trágico — não porque fez o certo, mas porque fez o necessário dentro de uma lógica de dano mínimo.

O problema dessa leitura é que ela depende de uma suposição: a de que o massacre realmente evitou um mal maior. E como vimos, essa inevitabilidade é questionável, mas coerente com a análise anterior envolvendo a idade do personagem e suas questões psicológicas.

Deontologia: o limite que não pode ser cruzado

Se o utilitarismo pergunta “qual foi o resultado?”, a deontologia pergunta:
“o que você fez pode ser moralmente permitido, independentemente do resultado?”

Aqui, Itachi não tem defesa.

Existem princípios que não podem ser violados: não matar inocentes, não usar pessoas como meio para um fim, não cometer genocídio. Esses princípios são absolutos. Não importa se mil vidas seriam salvas — matar uma criança inocente ainda seria errado.

Sob essa ótica, a ação de Itachi não é trágica, é simplesmente inaceitável.
O contexto explica, mas não justifica.

Essa é, talvez, a leitura mais desconfortável para quem simpatiza com o personagem, porque ela remove completamente a possibilidade de redenção moral. Itachi pode ser compreendido, pode até gerar empatia, mas continua sendo responsável por um ato imperdoável.

Ética da Virtude: a tragédia de um caráter incompleto

Diferente das anteriores, a ética da virtude não foca apenas na ação ou no resultado, mas no caráter de quem age.

E é aqui que Itachi se torna mais interessante.

Ele é, em muitos aspectos, virtuoso: valoriza a paz, demonstra empatia, é capaz de se sacrificar pelos outros e carrega um forte senso de dever. No entanto, essas virtudes coexistem com falhas profundas — não falhas morais simples, mas falhas de formação.

Itachi não desenvolve plenamente o que Aristóteles chamaria de phronesis, a sabedoria prática. Ele não equilibra suas virtudes com julgamento crítico. Sua lealdade vira submissão, seu senso de dever vira autoaniquilação, e seu amor pelo irmão se transforma em manipulação emocional.

Nesse sentido, ele não é nem herói nem vilão. Ele é trágico no sentido clássico: alguém com qualidades nobres que, por limitações internas, acaba tomando decisões devastadoras.

Contrato Social: o instrumento de um sistema falho

Quando analisamos Itachi pelo prisma do contrato social, o foco deixa de ser o indivíduo e passa a ser a estrutura em que ele está inserido.

Aqui, a pergunta muda:
Itachi agiu para preservar a ordem social?

Sim. Ele impediu um golpe, manteve a estabilidade da vila e evitou um possível colapso institucional. Sob esse ponto de vista, sua ação cumpre uma função clara: proteger o sistema.

Mas essa leitura carrega uma tensão importante. Se o sistema que ele protege é injusto, então preservá-lo também é um problema moral. O massacre não apenas mantém a ordem — ele reforça uma estrutura que marginaliza, manipula e, no limite, elimina seus próprios membros.

Itachi, então, deixa de ser apenas um agente e passa a ser um instrumento. Ele executa uma decisão que não é realmente dele, internalizando uma lógica de Estado que prioriza estabilidade acima de justiça.

Consequencialismo de longo prazo: o efeito dominó do trauma

Existe uma variação do consequencialismo que não se contenta com o resultado imediato, mas analisa os desdobramentos ao longo do tempo.

E aqui a decisão de Itachi começa a ruir.

Ao poupar a vila no curto prazo, ele planta as sementes de um desastre futuro. O trauma imposto a Sasuke não apenas destrói sua vida, mas alimenta um ciclo de ódio que se conecta diretamente com ameaças maiores. O sofrimento não é eliminado — ele é adiado e redistribuído.

Essa leitura sugere que o massacre não resolve o problema estrutural, apenas o empurra adiante, com juros.
Itachi tentou encerrar um ciclo de violência, mas acabou contribuindo para sua continuidade. Aqui, podemos ver algo admitido pelo próprio personagem em seu reencontro com Sasuke durante a Grande Guerra Ninja em forma de Edo Tensei.

Minha opinião se Itachi é Vilão, herói ou vítima!

Todas essas diferentes visões podem fazer com que nosso primeiro julgamento, o mais simplista, seja: “ele é um salvador”, “ele é criminoso”, “É um produto do sistema”, “Uma vítima das circunstâncias”. Porém, eu defendo que nossa visão deve ir além e partir de um princípio de que talvez não havia uma resposta correta, nunca houve.

Todavia, não ficarei em cima do muro e minha opinião é de que Itachi é vítima. Antes de estudar para escrever este post, eu tinha a opinião formada sobre a inevitabilidade da situação. Porém, como apresentei anteriormente, havia possíveis alternativas, ainda que não saibamos se o resultado delas seria suficiente ou melhor.

Aí entra aquela velha história de se colocar no lugar do outro. Tenho irmãos de treze anos, trabalho com crianças dessa idade todos os dias e, analisando friamente o contexto do personagem, é impossível ignorar o peso da idade que ele carrega. Abordei isso anteriormente no texto, mas vou repetir aqui para embasamento: trata-se de uma criança traumatizada pela guerra, convencida de que é um gênio, futuro líder de seu clã e colocado como responsável por ambos os lados por mentir e manipular aquilo que deveria proteger.

No fim, discutir se Itachi foi herói ou vilão talvez seja o erro. Porque a própria história mostra o verdadeiro problema: nunca deveria ter sido uma escolha para ele fazer.

Os verdadeiros vilões do massacre

O peso do massacre é frequentemente colocado nos ombros ou de Itachi, ou Danzo e até mesmo Hiruzen. Mas, para mim, é nítido que o maior responsável é Fugaku Uchiha, líder do clã e pai de Itachi e Sasuke. Ainda que existe um contexto, planejar um golpe de estado e uma guerra que ele sabia que traria consequências fortes não só ao seu clã, como para toda a vila, além de não muito inteligente, é irresponsável. Não só isso, mas envolver o próprio filho como espião, conhecendo sua personalidade, causou sua derrota antes mesmo da luta.

Mas o que Fugaku faria então? Muitos dos motivos do clã Uchiha se revolver envolviam questões antigas, causadas por pessoas que já não viviam mais – como Tobirama. Cabia então a Hiruzen, sabendo desse contexto, mudar a abordagem com o clã que representava a maior força militar da vila e que demonstrava seus descontentamentos. Não bastasse isso, ele sabia da boca do próprio Itachi das futuras intenções e simplesmente não tomou as medidas drásticas que poderia. Quem garante que simplesmente prender Fugaku já não seria suficiente? Itachi com certeza não era o único Uchiha que discordava de um golpe.

Danzō não fica atrás, usando de seu pragmatismo perigoso para agir de forma extremista, assumindo um papel que não cabia a ele e manipulando um soldado de apenas treze anos para não precisar sujar as próprias mãos. É o responsável direto pelo massacre, mas agiu em cima da inércia e do erro de Fugaku e Hiruzen.

Conclusão

Enfim, acredito que abordamos muitos dos pontos que envolve a maior polêmica de Naruto. Não fiz esse posto para mudar sua opinião, mas para trazer a discussão ao cinza, abandonando o simples preto no branco que ela costuma se encontrar. Uma coisa, entretanto, é evidente: trata-se de uma discussão eterna, mas divertida.

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