A suposta interferência da Meta, dona de Facebook, Instagram e WhatsApp, na eleição presidencial brasileira de 2026 virou um dos assuntos centrais da reta final da campanha. Entre agosto e o fim de outubro, a empresa foi acusada de derrubar perfis e publicações, travar anúncios da campanha de Luiz Inácio Lula da Silva (PT), reduzir alcance de apoiadores do petista, recomendar contas ligadas a Flávio Bolsonaro (PL) e manter uma ferramenta de inteligência artificial que gerava material de campanha para um candidato e recusava o do outro. A campanha de Flávio, por sua vez, acusou a mesma Meta de deixar circular milhares de anúncios negativos pagos contra ele.
Em resumo: não há, até 28 de outubro de 2026, prova de que a Meta tenha agido com intenção de favorecer ou prejudicar um candidato, e o próprio relator do caso no TSE escreveu, ao analisar a falha da IA, que não havia elementos de critério deliberado. Há, porém, falhas reconhecidas pela empresa, como a conta de anúncios de Lula desativada em 23 de setembro, o bloqueio de impulsionamento de 9 de outubro e a brecha na Meta AI, além de ordens do TSE que obrigaram a plataforma a tratar as duas campanhas com os mesmos critérios, sob pena de multa diária que foi elevada a R$ 1 milhão.
Esta reportagem reúne as principais publicações sobre o caso, em ordem cronológica dentro de cada tema, e foi apurada em 28 de outubro de 2026, três dias depois do segundo turno, realizado em 25 de outubro.
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A base é um levantamento de 133 matérias de veículos brasileiros e estrangeiros, das quais foram selecionadas as que tratam de falhas, justificativas da Meta, acusações de favorecimento e desfavorecimento, redução de alcance, bloqueios de contas e de postagens e o caso da IA do WhatsApp, além das denúncias que apresentaram indícios. Segundo o Meta Galáxia (metagalaxia.com.br), a maior parte dos números citados por denunciantes vem das próprias organizações que fizeram as denúncias e não foi auditada por terceiros.
| Episódio | Data | O que foi denunciado | Resposta da Meta | Situação |
|---|---|---|---|---|
| Perfil do Revelando derrubado | 23/09 | Remoção do perfil após episódio com Fábio Porchat sobre o Banco Master | Restaurou a conta após revisão interna e pediu desculpas | Revertido no mesmo dia |
| Conta de anúncios de Lula | 23/09 | Conta desativada a dez dias do primeiro turno | Diz que foi erro de um filtro antifraude, por pouco mais de uma hora | Revertido; caso citado no TSE |
| Contagem de visualizações | 07/10 | Queda abrupta nas views de Lula | Falha global de exibição em mais de 100 países | Explicação entregue ao TSE |
| Impulsionamento bloqueado | 09 e 10/10 | Perfil de Lula sem poder impulsionar posts por cerca de um dia | Bug técnico que afetou anunciantes em todo o mundo | Reconhecido pela empresa |
| Rede de 255 perfis com IA | 10 a 15/10 | 58 milhões de views e só 12,9% das publicações com rótulo de IA | Diz ter analisado 1.204 publicações e removido 720 | Apuração interna ordenada pelo TSE |
| Levantamento da CTRL+Z | 13 a 15/10 | Mais de mil relatos de restrições, a maioria contra perfis pró-Lula | Nega viés ideológico; cita ordens judiciais | Base de ações no MPF |
| Meta AI no WhatsApp | 13 e 14/10 | IA gerava arte com Flávio 22 e recusava Lula 13 | Admite lacuna corrigida no mesmo dia | Gerou liminar do TSE |
| Liminar de Bellizze | 15/10 | Pedido de isonomia da campanha de Lula | Diz cumprir as ordens | Referendada por unanimidade em 16/10 |
| Mensagens internas | 16/10 | Funcionários admitiriam prejuízo a Lula e recomendação de Flávio | Problemas já eram públicos; nega lado | Citadas em ação no TSE |
| Anúncios negativos contra Flávio | 17 e 23/10 | Milhares de anúncios pagos pela campanha de Lula | Removeu parte dos anúncios, segundo a ação | AIJE em tramitação |
| AIJE de Lula por manipulação algorítmica | 19 a 21/10 | Pedido de cassação de Flávio com base em métricas de engajamento e mensagens internas | Chama as alegações de falsas e fala em causas distintas | Investigação aberta pelo corregedor, sem decisão |
| Mensagens do Gov.br pelo WhatsApp | 20/10 | PL acusa o governo de usar dados oficiais em disparos | A Meta não é alvo da ação | AIJE em tramitação |
| Vídeo de MC Cabelinho | 22/10 | Vídeo crítico a Flávio restringido por suposto uso de IA | Sinal de IA viria do aplicativo de edição | Revisão humana ordenada pelo TSE |
| Ação do MPF | 21/10 | Bloqueios automáticos sem revisão humana | Diz seguir resolução do TSE | Ação civil pública sem liminar localizada |
| Alcance de Nikolas e Marçal | 22 a 24/10 | Suspeita de distribuição privilegiada | Engajamento, e não seguidores, define alcance | Relatórios a cada seis horas |
Como ler as denúncias: fato, acusação e resposta
Antes dos episódios, vale separar três camadas que se misturam no noticiário. A primeira é o fato verificável: decisões do TSE, pareceres do Ministério Público, notas oficiais da própria Meta e números divulgados por órgãos públicos. A segunda é a acusação: o que campanhas, organizações e usuários dizem ter acontecido. A terceira é a interpretação: a leitura de que um conjunto de falhas configura interferência.
Nenhuma das fontes reunidas prova dolo da Meta, isto é, intenção de interferir no resultado. O ministro Marco Aurélio Bellizze, relator da principal ação no TSE, registrou em 15 de outubro que a ferramenta de IA falhou, mas que não havia elementos para afirmar que a falha decorreu de critério deliberado. A empresa sempre negou favorecimento. Do outro lado, campanhas e entidades sustentam que a repetição de falhas contra o mesmo lado não pode ser tratada como coincidência.
Também é preciso considerar quem produz os números. O levantamento de mais de mil casos de restrição é da CTRL+Z, organização que fez as denúncias. As contas sobre anúncios negativos contra Flávio vêm da própria campanha de Flávio. O estudo sobre o alcance de Nikolas Ferreira é do Sleeping Giants Brasil, que também foi ao Ministério Público. Esses dados foram usados em processos, mas não passaram por auditoria independente até a data desta apuração.
Por fim, o mecanismo importa. Uma possível interferência pode ocorrer por remoção de conteúdo, por restrição de alcance (o post continua no ar, mas é mostrado a menos gente), por recomendação seletiva (a plataforma sugere uma conta e não a outra), por bloqueio de anúncios ou por regras aplicadas de forma desigual numa ferramenta de IA. Cada episódio abaixo indica qual mecanismo foi apontado.
O caso Revelando e Fábio Porchat
O primeiro episódio de grande repercussão ocorreu na manhã de 23 de setembro, quando o Instagram tirou do ar o perfil do Revelando, série jornalística do podcast Calma Urgente. Dois dias antes, o perfil havia publicado o episódio apresentado por Fábio Porchat sobre as ligações entre o Banco Master, a Igreja Batista da Lagoinha e políticos, entre eles Flávio Bolsonaro e Nikolas Ferreira. O Metrópoles registrou a derrubada do perfil do Revelando e informou que a plataforma alegou apenas que o conteúdo não seguia seus padrões, sem indicar a regra.
O mecanismo apontado foi a remoção integral da conta. Segundo o ICL Notícias, o teaser do episódio tinha cerca de 6 milhões de visualizações quando o perfil caiu, e publicações feitas em parceria com outras páginas desapareceram junto. Porchat chamou a remoção de tentativa de censura e disse que o vídeo não era campanha, mas uma lista de fatos já noticiados, como relatou a Revista Fórum na cobertura da reação do apresentador.
A resposta da Meta veio no mesmo dia. De acordo com o Poder360, a empresa restaurou o perfil após uma revisão interna e pediu desculpas pela inconveniência, sem explicar qual regra havia motivado a remoção. O perfil tinha cerca de 428 mil seguidores. Porchat afirmou depois, ao Metrópoles, que o tempo fora do ar prejudicou o engajamento dos vídeos. A CartaCapital registrou o recuo da Meta e a justificativa genérica de que o conteúdo não seguia os padrões da rede. Em vídeo reproduzido pelo ICL Notícias, Porchat atribuiu a volta à reação do público: “Depois de muita pressão, a página voltou pro ar”.
O caso gerou duas representações ao Ministério Público Federal no mesmo dia. Uma foi do deputado Orlando Silva (PCdoB-SP); a outra, da CTRL+Z, que, segundo o ICL Notícias, pediu investigação e uma justificativa detalhada da Meta sobre a norma violada. A organização argumentou que o perfil foi retirado e devolvido sem motivação registrada. O Meta Galáxia já havia contado o episódio na reportagem sobre a série Revelando e o caso República dos Laranjas.
Situação: perfil restaurado no mesmo dia. A Meta reconheceu o erro implicitamente ao se desculpar, mas não detalhou publicamente a causa. Não foi localizado desfecho das representações ao MPF especificamente sobre esse episódio, que acabou incorporado às apurações mais amplas sobre bloqueios.
Bloqueio de anúncios e contas da campanha de Lula
Também em 23 de setembro, a cerca de dez dias do primeiro turno, a conta de anúncios Eleições 2026 Luiz Inácio Lula da Silva Presidente foi desabilitada. Segundo o Poder360, a campanha recorreu à Meta, pediu o restabelecimento em seis horas e disse avaliar acionar o TSE. A notificação recebida dizia apenas que algumas atividades não seguiam as regras da plataforma.
O mecanismo, neste caso, é o bloqueio de anúncios: sem a conta ativa, a campanha não consegue impulsionar publicações pagas. A Meta explicou mais tarde, em nota de 16 de outubro, que a conta ficou fora do ar por pouco mais de uma hora e que a suspensão foi causada por um filtro antifraude ligado a um acordo com a Advocacia-Geral da União. A versão está registrada pelo Poder360 na nota em que a Meta nega interferência.
O segundo episódio de anúncios é o de 9 e 10 de outubro, já no segundo turno. A campanha relatou que o perfil de Lula no Instagram ficou impedido de impulsionar posts por quase um dia. Em 10 de outubro, a coligação levou o tema ao TSE e à Agência Nacional de Proteção de Dados (ANPD), citando também a interrupção na contagem de visualizações e a remoção do perfil de Lula das buscas do Instagram em dezembro de 2025, como informou a CNN Brasil ao noticiar a acusação de interferência em favor de Flávio.
O despacho da AFP publicado pelo Malay Mail acrescenta que, segundo a nota da campanha, os perfis de Lula e de outros líderes de esquerda sumiram da busca do Instagram antes do primeiro turno.
Na peça noticiada pela CNN Brasil, a campanha afirmou que Flávio teve quase três vezes mais engajamento que Lula com 17,2% menos seguidores. O número é da campanha e compara desempenho, não demonstra por si só intervenção da plataforma. A Meta chamou as acusações de falsas e disse que os problemas técnicos não afetaram só o Brasil nem contas específicas.
Sobre a queda de visualizações de 7 de outubro, a empresa apresentou ao TSE, em 12 de outubro, a explicação de uma falha global que travou a contagem de Reels entre 15h50 e 20h49 em mais de 100 países. Segundo o Metrópoles, a Meta afirmou que só a exibição do total foi afetada e que a distribuição de Lula naquele dia ficou acima do padrão recente. Na mesma manifestação, relatada pela CNN Brasil, a Meta reconheceu erros em anúncios de Lula, mas negou viés no algoritmo, afirmando que seus sistemas não operam segundo critérios ideológicos.
Situação: a Meta admite os dois incidentes de anúncios e a falha de contagem, mas os atribui a causas técnicas. O TSE mandou corrigir de forma definitiva as restrições à conta de anúncios e repor, até 21 de outubro, a entrega de publicidade paga que não foi feita durante os bloqueios.
Bloqueios em massa de perfis e posts
O eixo mais amplo das denúncias envolve milhares de usuários comuns, coletivos, veículos independentes e movimentos sociais que relataram remoções, suspensões e perda de alcance. Aqui a possível interferência apontada não é um ato isolado, mas um padrão de moderação automática que, segundo os denunciantes, atingiu mais um lado da disputa.
O levantamento da CTRL+Z e a divergência nos números
A principal base é o levantamento da CTRL+Z, divulgado em 13 de outubro. Há duas versões do total na própria cobertura do mesmo dia. Uma reportagem da Revista Fórum sobre mais de 1.100 perfis fala em 1.121 relatos e em pelo menos 16 perfis que a Meta teria restringido por conta própria depois de a campanha de Flávio pedir sua retirada.
Outro texto da mesma revista, sobre a derrubada de um vídeo de Renato Rovai, cita 1.088 relatos e 17 perfis. O número de 1.121 é o que aparece depois no ICL Notícias, na Fast Company Brasil e em documento do governo federal citado pela Agência Brasil.
Os relatos foram classificados em três tipos. A supressão de alcance respondia por cerca de 36% dos casos; restrições de funcionalidade, como impedir compartilhamento ou envio de mensagens, por 32%; e remoções ou banimentos, por 22%. Os percentuais são da organização.
Em 15 de outubro, a Agência Pública publicou a análise dos casos da primeira quinzena de outubro. Segundo a reportagem, 22% dos usuários disseram não ter recebido explicação e a perda de alcance foi o tipo mais comum, com 356 registros. Entre os casos com orientação política identificável, cerca de nove em cada dez eram pró-Lula ou progressistas. Em 54% dos relatos, porém, não foi possível identificar a orientação. É uma ressalva importante: a proporção vale só para a parcela classificada. A reportagem foi republicada pelo Núcleo sob o título de que a Meta barra conteúdos políticos, mas deixa robôs agirem.
A Meta respondeu à Pública que houve falhas técnicas em anúncios e posts da campanha de Lula, negou viés ideológico e afirmou que parte das remoções de posts de ministros, jornalistas e militantes no primeiro turno se deu por ordem do próprio TSE. A republicação no Aos Fatos contrapôs as restrições à permanência de redes automatizadas, citando 255 perfis que somaram 58 milhões de visualizações em um mês, segundo o Instituto Democracia em Xeque.
Páginas e veículos derrubados: Brasil Fora da Caverna, Mídia Ninja e Fórum
Antes da campanha oficial, em 21 de agosto, o Instagram removeu a página Brasil Fora da Caverna, que tinha acabado de passar de 1,1 milhão de seguidores. Segundo a Revista Fórum, a página disse não ter recebido aviso prévio e classificou a remoção como censura. A Meta não apresentou justificativa pública até a publicação.
Em 2 de outubro, dois dias antes do primeiro turno, a Mídia Ninja relatou a restrição de uma publicação sobre a embaixada dos Estados Unidos. O aviso citava a legislação eleitoral, mas não indicava o trecho nem se havia ordem judicial. Uma segunda postagem sobre o mesmo tema teve o mesmo tratamento. A Meta disse seguir suas políticas e as resoluções do TSE.
Em 10 de outubro, um vídeo de comentário de Renato Rovai, diretor da Fórum, publicado em agosto, foi removido do Instagram e do Facebook sob alegação de violação de direitos autorais. A revista afirma que o vídeo não reproduzia imagens nem trilha de terceiros. A publicação voltou ao Facebook em 13 de outubro, após recurso.
DCEs, Fonasefe e grupos de WhatsApp
Em 6 de outubro, o Brasil de Fato noticiou a derrubada dos perfis dos DCEs da UFPR e da UTFPR, em Curitiba, quando as entidades convocavam assembleias de mobilização pela reeleição de Lula. O convite saiu do ar junto com as contas. Não houve restauração relatada até a publicação, e a Meta não se manifestou.
Em 13 de outubro, o caso foi o do Fonasefe, fórum de entidades de servidores federais. Após representação de Flávio Bolsonaro, o TSE mandou retirar três publicações críticas às propostas do candidato para o funcionalismo. Segundo o Brasil de Fato, a Meta removeu 13 postagens, número superior ao da ordem judicial, de acordo com o Fonasefe. A empresa não comentou.
A Agência Pública reuniu casos de bloqueios justificados como terrorismo e nudez. Um deles é o de uma comunidade de WhatsApp de apoio a Lula, em Brasília, suspensa em 8 de outubro por suposta atividade ligada a organizações terroristas. A coordenadora disse ter sido informada de uma possível falha de tradução num sistema de monitoramento. Outro é o de um vídeo crítico a Flávio, republicado por um professor de São Paulo, bloqueado sob a acusação de nudez infantil, enquadramento contestado pelo usuário.
Richarlison, Nikolas e as queixas dos dois lados
Em 22 de outubro, o jogador Richarlison questionou a Meta porque um vídeo dele sobre a disputa por uma mansão em Angra dos Reis, que envolve um advogado amigo de Flávio, passou a exibir cinco segundos de tela escura antes de começar. A própria Revista Fórum, ao relatar a acusação contra a Meta, registrou que não havia comprovação técnica de inserção deliberada nem de queda de alcance causada pelo intervalo.
Queixas sobre funcionalidades também partiram do campo de Flávio. Segundo o explicador da CNN Brasil sobre as ações eleitorais envolvendo a Meta, Nikolas Ferreira relatou em 20 de outubro que seguidores tiveram dificuldade para compartilhar um vídeo de apoio a Flávio nos Stories e que o post depois ficou sem som. A Meta informou que o áudio foi retirado por pedido de direitos autorais ligado à música usada no vídeo.
Os 206.910 conteúdos restringidos
O dado mais objetivo sobre a escala dos bloqueios veio da própria Meta. Questionada pela Procuradoria Federal dos Direitos do Cidadão, a empresa informou ter restringido 206.910 conteúdos entre 1º e 5 de outubro com base no silêncio eleitoral e na detecção de IA, segundo o Poder360 na reportagem sobre o MPF e os bloqueios de posts. A CNN Brasil descreve o mesmo número como mais de 200 mil perfis bloqueados de forma automática. Há, portanto, divergência sobre se o total se refere a conteúdos ou a perfis; o texto do Poder360 fala em conteúdos.
Situação geral desse eixo: as denúncias estão reunidas no procedimento da PFDC e na ação civil pública do MPF, tratadas mais adiante. A Meta não reconheceu viés e atribui as restrições a regras do TSE, a ordens judiciais e a sinais automáticos de IA.
A inteligência artificial do WhatsApp e o caso Flávio 22 x Lula 13
O episódio de maior repercussão técnica começou na noite de 13 de outubro, quando usuários relataram que a Meta AI, o assistente de inteligência artificial embutido no WhatsApp, criava estampas de campanha para Flávio Bolsonaro e recusava pedidos equivalentes para Lula. O Núcleo reproduziu o comportamento em testes publicados em 14 de outubro, depois republicados pelo Aos Fatos, com os comandos usados para Lula 13 e Flávio 22.
Nos testes, o pedido de estampa com Lula, PT e o número 13 era recusado, e o mesmo pedido com Flávio, PL e o número 22 era atendido. A palavra Lula sozinha bloqueava qualquer imagem, inclusive um pedido sobre o molusco. O Núcleo registrou na publicação original que, com nome e sobrenome de Flávio Bolsonaro, a ferramenta costumava recusar, mas que uma pessoa da equipe conseguiu gerar uma imagem com Bolsonaro 22.
Outros veículos repetiram os testes com resultados semelhantes. A CartaCapital obteve cartazes de Flávio com o número 22 e de Augusto Cury com o 70, enquanto o de Lula foi negado; a IA atribuiu a recusa a um bloqueio automático. A Fast Company Brasil registrou que Luiz 13 também gerava imagem e que Bolsonaro 22 foi recusado em seus testes, o que indica um filtro baseado em palavras, e não em candidatos. Em 15 de outubro, a ferramenta já recusava nome e número de qualquer candidato.
Em 17 de outubro, a Revista Fórum relatou um teste com cartazes de animais: ao pedir pôsteres fictícios de uma onça e de um elefante candidatos, o repórter recebeu peças com Vote 22 sem ter mencionado número algum, e a IA recusou trocar para 13. O teste é de um único veículo e não foi reproduzido por outros na base consultada.
A Meta respondeu ao Núcleo que, para cumprir as regras eleitorais, havia proibido temporariamente a recomendação de candidatos e a geração de imagens deles, e que adotara medidas extras para bloquear comandos com primeiro nome e número de urna. Na nota de 16 de outubro, chamou o problema de lacuna, disse que ela afetou os dois candidatos e que foi corrigida no mesmo dia.
As consequências foram imediatas. Em 14 de outubro, a campanha de Lula acionou o TSE alegando seletividade algorítmica, segundo a Agência Brasil, e a CTRL+Z apresentou denúncia à Corregedoria da Justiça Eleitoral. O ex-deputado Marcelo Freixo levou o caso à Procuradoria-Geral Eleitoral, citando possível abuso de poder econômico e doação estimável vedada, como relatou o Metrópoles na coluna sobre a representação de Freixo. Em 15 de outubro, o presidente do TSE, Kassio Nunes Marques, recebeu representantes da Meta em Brasília para tratar do assunto, segundo o Metrópoles.
Mecanismo apontado: aplicação desigual de um filtro de IA. Situação: a Meta admite a falha e diz que a corrigiu; o ministro Bellizze considerou em exame preliminar que o controle de comandos falhou, mas não encontrou elementos de falha deliberada ou sistemática, e determinou critério idêntico para as duas candidaturas.
Recomendação e alcance: buscas, Nikolas e os canais de WhatsApp
Um terceiro grupo de denúncias trata menos de remoções e mais de distribuição: quem a plataforma sugere, quem aparece primeiro na busca e quem alcança pessoas que não o seguem. Esse é o mecanismo mais difícil de demonstrar de fora, porque depende de dados que só a empresa possui.
Busca e sugestão de perfis
A campanha de Lula afirma que o perfil do presidente sumiu das buscas do Instagram em dezembro de 2025 e que, durante a campanha, o perfil de Flávio era sugerido pelo algoritmo. A CartaCapital relatou um teste em que buscas por Lula e Alckmin não traziam os perfis pessoais entre os primeiros resultados, enquanto buscas por Flávio Bolsonaro e Bolsonaro mostravam os perfis correspondentes. A recomendação de candidatos era proibida pela própria Meta no período, segundo a nota da empresa sobre a IA.
Exército do Lula e Tropa do Flávio
Em 14 de outubro, o Congresso em Foco mostrou que a busca por Exército do Lula no WhatsApp sugeria o canal Tropa do Flávio, enquanto a busca inversa não mostrava canais ligados a Lula ou ao PT. Na ocasião, o Exército do Lula, canal do deputado André Janones, estava suspenso por decisão judicial. O Brasil de Fato contrastou a suspensão com a atuação do canal pró-Flávio, que, segundo o jornal, compartilhou conteúdos falsos. A Meta não comentou especificamente a sugestão.
O canal de Janones depois voltou ao ar e passou a ser alvo da campanha de Flávio, tema tratado na seção sobre as acusações do PL. A Agência Brasil informou que o TSE chegou a estudar a desativação de canais políticos com mais de 200 mil seguidores nas 48 horas anteriores ao segundo turno; a minuta dependia do plenário.
Os 410 milhões de views de Nikolas Ferreira
Em 16 de outubro, Sleeping Giants Brasil, Artigo 19 e CTRL+Z acionaram o Ministério Público Eleitoral pedindo investigação sobre um possível favorecimento ao deputado Nikolas Ferreira. Segundo a Mídia Ninja, que detalhou o estudo dos 410 milhões de visualizações, dez vídeos do parlamentar somaram 410,5 milhões de views, quase o triplo dos 90 vídeos de outros nove deputados analisados. O estudo comparou 300 Reels de 30 perfis, com dados coletados em 11 de outubro.
O próprio texto registra que o Sleeping Giants não encontrou anúncios recentes no perfil principal de Nikolas e que não há comprovação de que gastos com publicidade em outra conta ligada a ele tenham influenciado os vídeos analisados. O estudo levanta a hipótese de distribuição diferenciada; não a prova. A Meta respondeu em 22 de outubro que é o engajamento, e não o número de seguidores, que impulsiona o alcance, e negou tratamento preferencial.
O tema chegou ao TSE. O ministro Ricardo Villas Bôas Cueva deu 12 horas, em 22 de outubro, para a Meta explicar o alcance de Nikolas, Pablo Marçal, Flávio Bolsonaro e Alfredo Gaspar, segundo a Revista Fórum, incluindo a origem das visualizações e a parcela de não seguidores. As decisões seguintes sobre o tema estão na seção do TSE.
Mensagens internas e documentos vazados
Em 16 de outubro, a Folha de S.Paulo publicou mensagens internas de funcionários da Meta no Brasil. A reportagem original não foi aberta para esta apuração; o conteúdo é conhecido pelas repercussões. Segundo o Brasil de Fato, as mensagens mostram que funcionários reconheceram o prejuízo às contas de Lula, que ficaram quase um dia sem poder impulsionar posts, e que o perfil de Flávio foi sugerido pelo algoritmo do Instagram e em buscas no WhatsApp.
O Núcleo resumiu que a empresa foi levada a admitir o erro depois da reportagem. Pelas mensagens, funcionários brasileiros pediram que o caso fosse classificado como de alta gravidade e reclamaram da demora de engenheiros nos Estados Unidos. A estimativa de 1,3 milhão de pessoas que deixaram de ver os anúncios é da campanha de Lula, não da Meta. As mensagens também permitem comparar a duração da falha mundial com a do bloqueio de Lula, ponto detalhado na seção sobre as denúncias e os indícios.
A agência Reuters repercutiu o caso, reproduzido pela Al Jazeera. À agência, a Meta disse que os problemas técnicos já eram públicos e que as conversas tratavam apenas da gravidade deles, e que qualquer sugestão de que favorece um lado é falsa.
Em 23 de outubro, o Núcleo noticiou o vazamento de novos documentos internos. Um relatório de 19 de outubro listaria ao menos seis problemas de alta prioridade abertos no perfil de Lula, como falha na busca, Stories limitados a seis segundos, comentários ocultos e restrições a anúncios e à IA. A Meta voltou a falar em incidentes técnicos e negou favorecer Flávio.
Os documentos mostram que a empresa sabia das falhas e as tratava como problemas a resolver. Eles não mostram, segundo o que foi publicado, ordem para prejudicar um candidato. A campanha de Lula pediu acesso integral a essas mensagens na ação que move no TSE.
Anúncios irregulares, pagos em dólar e o preço por alcance
Outra linha de críticas não trata de restringir, mas de deixar passar: anúncios com desinformação, propaganda paga do exterior e peças veiculadas fora do prazo legal. Aqui o mecanismo apontado é a falha de fiscalização da publicidade, que a Meta vende e da qual recebe pagamento.
Testes de aprovação de anúncios
Em 25 de agosto, a Anistia Internacional divulgou um experimento com 15 anúncios de teste em português, 14 deles com desinformação eleitoral. O Facebook aceitou 8 dos que tinham desinformação, incluindo 3 de 4 com retórica militar. Os anúncios foram cancelados antes de ir ao ar. Segundo a Anistia, a Meta não respondeu à carta enviada em julho.
Em 17 de setembro, a organização Ekō divulgou teste semelhante, relatado pelo Poder360: de 15 anúncios com imagens de IA e desinformação, 13 foram aprovados, nenhum com o rótulo de IA exigido pelo TSE, todos enviados de conta nos Estados Unidos. Entre eles, uma imagem falsa de ministro do TSE e um falso apoio de Donald Trump a Flávio. A Meta disse que o estudo trata de anúncios que nenhum usuário viu e que sua revisão tem várias camadas. O teste voltou a ser citado pela Al Jazeera em 21 de outubro; à rede, a empresa contestou o estudo e disse que seu sistema identificou corretamente os anúncios sobre eleições.
Anúncios pagos em dólar e vindos do exterior
Em 3 de outubro, a Agência Pública mostrou que ao menos 1.069 anúncios sobre Lula e Flávio foram pagos em dólar, sem rótulo político, com custo de ao menos US$ 120,8 mil e mais de 82 milhões de impressões entre 16 de agosto e 30 de setembro. A Meta afirmou que os anúncios foram identificados corretamente e removidos conforme suas políticas.
Em 21 de outubro, o jornal A Tarde noticiou relatório do NetLab, da UFRJ, com 1.613 anúncios político-eleitorais pagos do exterior entre julho e setembro, por 187 anunciantes sem autorização, somando até R$ 2 milhões e 171,1 milhões de impressões. Entre os pagadores identificados, 98,1% estavam nos Estados Unidos, e 366 anúncios tinham indícios de comportamento coordenado. Segundo o relatório, a Meta só reclassificou ou removeu as peças depois de veiculadas.
Propaganda no dia da votação
No período de resguardo do primeiro turno, o NetLab identificou 568 anúncios irregulares nas plataformas da Meta, ligados a 15 candidatos, segundo a Agência Pública. Seis imitavam comunicações do TSE e divulgavam um voto pela internet que não existe. A Meta disse, ao Brasil de Fato, que a amostragem não reflete a escala de seu trabalho de integridade.
Quanto cada campanha pagou por alcance
Em 23 de outubro, uma análise de 7.677 anúncios veiculados entre 16 de agosto e 4 de outubro indicou que a campanha de Lula pagou de 33% a 43% mais por mil pessoas alcançadas que a de Flávio, em três modelos estatísticos. Um quarto modelo apontou diferença de 10%, sem significância. Segundo a coluna do Túlio no SBT News, os próprios pesquisadores afirmam que os dados não provam favorecimento deliberado. A Meta contestou a metodologia e disse que o preço sai de leilão, não da identidade do anunciante.
Também é dado de contexto o volume de dinheiro envolvido. Levantamento citado pelo Poder360 apontou ao menos R$ 236 milhões pagos à Meta por propaganda eleitoral no primeiro turno, com Flávio como maior anunciante. A Al Jazeera citou análise do G1 com ao menos R$ 288 milhões em 2026. As cifras são de recortes diferentes e não devem ser somadas.
Em 23 de outubro, a Agência Pública relatou que a campanha de Flávio gastou mais de meio milhão de reais em anúncios na Meta num só dia, 20 de outubro, e veiculou ao menos 26 vídeos direcionados a bairros de São Paulo com indícios de alteração por IA, sem aviso, inclusive após o início da proibição de impulsionar conteúdo alterado por IA nas 72 horas anteriores à votação. A campanha não foi ouvida no trecho consultado.
O caso MC Cabelinho
Em 22 de outubro, três dias antes do segundo turno, o Instagram restringiu um vídeo do cantor MC Cabelinho feito com o Revelando. O episódio, chamado Flavinho de Papai, trata da acusação de que Flávio Bolsonaro teria sido funcionário fantasma no gabinete do pai aos 19 anos. A CNN Brasil noticiou a derrubada do vídeo e a explicação da empresa.
A Meta alegou sinal de uso de IA, vedado nas 72 horas antes da votação pela Resolução 23.755/2026 do TSE. Segundo a empresa, muitos aplicativos de edição inserem nos arquivos um marcador padrão da indústria, que a plataforma lê automaticamente; os conteúdos voltariam a ficar visíveis após o período definido pelo tribunal. A produtora Calma Urgente negou o uso de IA e disse ter usado apenas imagens de um banco de imagens.
Sobre o que aconteceu depois, há versões diferentes. A CNN Brasil informa que o post original foi removido, que o vídeo seguiu no YouTube e que o cantor, o Revelando e outros perfis republicaram o conteúdo, desta vez sem o selo de IA. A Revista Fórum registrou o post como restrito no Brasil no momento da publicação. Já o Poder360, na reportagem sobre os bloqueios por IA, descreve a retirada como temporária e, segundo o levantamento consultado, informa que o vídeo voltou horas depois. A mesma reportagem relata que duas publicações do próprio Poder360 ficaram ocultas pela mesma regra sem terem usado IA generativa.
Em 23 de outubro, o corregedor Cueva mandou a Meta submeter a remoção a revisão humana e informar o resultado ao TSE. O resultado dessa revisão não foi localizado até 28 de outubro. A cobertura própria sobre o episódio está na reportagem do site sobre o vídeo Flavinho de Papai com MC Cabelinho.
Mecanismo apontado: restrição automática por detecção de IA. A situação é a de um caso em que a própria regra eleitoral foi aplicada por um sistema automático com falsos positivos admitidos pela empresa, o que alimentou a crítica do MPF à ausência de revisão humana.
As denúncias e os indícios apresentados
As seções anteriores descrevem os episódios. Esta reúne as denúncias formais e as reportagens que, além de acusar, apresentaram algum indício, como um número, um teste ou uma mensagem interna. Indício não é prova. Na maior parte dos casos, os dados vêm de quem acusa, e a Meta contesta a leitura feita deles. Quando o episódio já foi contado acima, o texto apenas remete à seção correspondente.
A AIJE da campanha de Lula por manipulação algorítmica
Em 19 de outubro, a CNN Brasil informou que a campanha de Lula pediria investigação da Meta por descumprir a decisão de Bellizze que proibia restringir o alcance de publicações dos candidatos. Segundo trecho da ação obtido pela emissora, a campanha queria que a empresa entregasse dados de alcance e as pontuações atribuídas por seus modelos de ranqueamento no Instagram, no WhatsApp e no Facebook.
O texto da Folhapress publicado pelo ICL Notícias detalhou os indícios reunidos na ação, que pede a cassação da chapa de Flávio por uso indevido dos meios de comunicação e abuso de poder econômico. O principal é uma comparação de métricas: com 17,2% menos seguidores que Lula (13,6 milhões contra 16,4 milhões), o perfil de Flávio teria média de curtidas e comentários 2,96 vezes maior e média de 15,64 milhões de visualizações nos Reels, contra 5,91 milhões do petista. A peça cita ainda um vídeo de Nikolas Ferreira que teria alcançado 396,4 mil visualizações no TikTok e 56,1 milhões no Instagram.
Outro ponto é uma publicação do presidente da Fiesp, Paulo Skaf, contra Lula, impulsionada com recursos da entidade em 13 de outubro e vista por mais de 1 milhão de usuários do Facebook e do Instagram. Pela lei, só partidos, coligações e candidatos podem pagar por propaganda eleitoral. O indício aqui é de falha na fiscalização de anúncios, não de restrição.
A ação também se apoia nas mensagens internas reveladas pela Folha. Segundo o mesmo texto, a falha mundial de impulsionamento ocorreu em 7 de outubro e durou cinco horas, enquanto o bloqueio do perfil de Lula foi registrado no dia 9 e durou quase 24 horas. A Meta sustenta outra versão: atribuiu o bloqueio de 9 e 10 de outubro a uma falha no gerenciador de anúncios que, segundo o Metrópoles, atingiu mais de 3 mil anunciantes. À Folha, a empresa disse que as alegações são falsas, que os problemas tiveram causas distintas e que não dá tratamento preferencial a candidato.
Anunciada em 19 de outubro, a ação foi protocolada no dia 21. De acordo com o Diario de Pernambuco, a peça tem 138 páginas, inclui também o X e pede a cassação da chapa e a inelegibilidade de Flávio por oito anos.
Com base em reportagem do Intercept Brasil, a coligação acusa a campanha do PL de pagar a empresa Elytron para criar contas falsas e espalhar desinformação nas plataformas da Meta. A Elytron divulgou nota, reproduzida pelo jornal, em que nega ter autorizado a oferta de operações de influência política em seu nome. A campanha de Lula calcula em R$ 7,4 milhões a diferença de visibilidade e pede R$ 7 milhões em créditos de impulsionamento. Situação: o corregedor Cueva abriu a investigação sem reconhecer irregularidades, e não houve decisão até 28 de outubro.
A rede de 255 perfis automatizados
O indício mais citado nos pedidos ao TSE é o levantamento do Instituto Democracia em Xeque sobre 255 perfis no Instagram que, segundo o estudo, usavam inteligência artificial para simular apoio a Flávio e atacar Lula, o PT e a primeira-dama Janja. Em 10 de outubro, o Poder360 noticiou que Bellizze deu 48 horas à Meta para explicar as restrições ao perfil de Lula e o que havia feito contra essa rede, que teria somado 58 milhões de visualizações em um mês.
A representação acrescentava que, dos 64 conteúdos sintéticos identificados pelo projeto VigIA, da Agência Lupa, entre 1º e 5 de outubro, 61 continuavam no ar em 7 de outubro.
Na mesma decisão, o ministro classificou a prova como em grande parte indireta, formada sobretudo por relatos de usuários e estudos de entidades civis. Escreveu que isso não a desqualifica, mas exige instrução técnica, e mandou a Lupa e o Democracia em Xeque apresentarem a metodologia. A Meta respondeu ao Poder360 que as alegações eram “simplesmente falsas”.
Em 15 de outubro, segundo o Metrópoles, Bellizze deu 24 horas para a Meta concluir uma apuração interna sobre os 255 perfis. O relatório do instituto analisou 1.204 publicações, das quais só 155, ou 12,9%, traziam a identificação de conteúdo feito com IA exigida pela regra eleitoral. A resposta da empresa ao TSE, com 720 publicações removidas, está na seção sobre o tribunal.
Denúncias à OEA, à ANPD e aos observadores internacionais
Em 14 de outubro, o senador Camilo Santana (PT-CE), coordenador da campanha, anunciou que levaria os indícios de interferência à ANPD e à OEA, segundo O Liberal. Entre os exemplos estavam os cartazes da Meta AI e a sugestão do canal Tropa do Flávio a quem buscava o Exército do Lula no WhatsApp. No mesmo dia, a campanha se reuniu com parlamentares e partidos estrangeiros. Os veículos falam em 12 países, mas a lista publicada tem 11 nomes.
O Poder360 informou que a campanha apresentaria aos observadores credenciados no TSE, em 15 de outubro, um relatório com indícios de interferência. Segundo a campanha, o perfil de Lula passou horas sem o botão de repostar e teve falhas nos Stories. Camilo disse que o site da campanha recebeu mais de 2.500 relatos em três dias. A coligação também lançou o site Censura Digital para receber queixas de usuários, segundo o Brasil de Fato, e pediu ao TSE a recomposição em dobro do alcance que diz ter perdido, com Nikolas Ferreira citado como exemplo de alcance “desproporcional e artificial”.
O mesmo texto do Brasil de Fato registra o que a Meta admitiu nos documentos do processo: a desativação indevida da conta de anúncios em 23 de setembro e a falha na contagem de Reels em 7 de outubro. A empresa também reconheceu ter mantido no ar, até o ajuizamento da ação, sete contas que violavam suas regras. Ela nega que seus sistemas tenham favorecido ou prejudicado candidaturas. Não foi localizada confirmação de que a ANPD ou a OEA tenham aberto apuração.
O dossiê do Sleeping Giants
Em 22 de outubro, o Sleeping Giants Brasil divulgou o dossiê Meta, não se meta nas nossas eleições, com 74 páginas e 41 registros sobre publicidade política, IA, distribuição de conteúdo e moderação. Segundo o ICL Notícias, o documento sistematiza pesquisas já publicadas. Um dos dados reunidos vem de um estudo do NetLab com 6.757 anúncios veiculados entre 16 de agosto e 16 de setembro: 2.326 tratavam do processo eleitoral, e 1.586 deles (68,1%) atacavam instituições ou questionavam a legitimidade da eleição. Os outros números, como os 1.613 anúncios pagos do exterior e os casos da CTRL+Z, já aparecem nesta reportagem.
A própria organização ressalta que o dossiê não afirma que todas as ocorrências resultaram de ação deliberada da empresa. A Meta, citada no texto, repetiu que parte dos problemas veio de falhas técnicas corrigidas e que cerca de 70% das medidas sobre contas de Lula examinadas na Justiça Eleitoral cumpriam ordens judiciais. O ICL, que distribui a série Revelando, relatou no mesmo texto o bloqueio do trailer de um documentário próprio, A última peça, por suposto uso de IA; nesse caso, o veículo é parte interessada.
A rede paralela de perfis de apoio
Em 21 de outubro, a Agência Pública mostrou que candidatos usam redes paralelas de perfis na Meta sem declará-las ao TSE. Segundo a reportagem, Flávio tem ao menos sete perfis de apoio não declarados, cada um com mais de 100 mil seguidores, que somam mais de 2,5 milhões; alguns publicam o mesmo conteúdo do perfil oficial com minutos de diferença. Do outro lado, o deputado André Janones criou em 6 de outubro uma página de apoio com 1,6 milhão de seguidores, também não declarada, que divulga o canal Exército do Lula.
Esse caso aponta menos para uma ação da Meta e mais para um efeito da regra eleitoral. A advogada Caroline Lacerda, doutora em direito eleitoral pela UnB, explicou à Pública que as páginas de apoio não estão sujeitas à proibição de recomendar perfis oficiais de candidatos e, por isso, funcionam como caminho alternativo de alcance. A prática é lícita quando a página é espontânea e não recebe dinheiro. A Meta removeu três publicações impulsionadas de uma página pró-Flávio com 13,7 mil seguidores. As assessorias de Flávio e de Janones foram procuradas e não haviam respondido até a publicação.
O anúncio do clube de tiro
Em 22 de outubro, o Núcleo noticiou que a Meta removeu o anúncio de um clube de tiro que oferecia 22% de desconto na filiação a quem apoiasse Flávio Bolsonaro. O post patrocinado, do clube Bala de Prata, circulou de 13 a 19 de outubro, custou entre R$ 200 e R$ 299 e teve de 20 mil a 25 mil impressões.
Pela Biblioteca de Anúncios da empresa, a remoção ocorreu porque faltava o rótulo obrigatório de tema político. A legislação eleitoral proíbe empresas de fazer campanha, e as publicações não impulsionadas do clube seguiam no ar. O valor é pequeno; o que o caso documenta é o intervalo de seis dias até a remoção.
Leituras de pesquisadores e da imprensa estrangeira
Parte da cobertura traz interpretações, e não fatos novos. Em entrevista ao Intercept Brasil em 14 de outubro, a antropóloga Letícia Cesarino, da Universidade Federal de Santa Catarina, afirmou não ter dúvida de que a Meta interfere na eleição, mas disse também que “evidência a gente nunca vai ter”, porque as plataformas não podem ser auditadas. Ela citou o alcance de um vídeo de Nikolas Ferreira sobre o Pix como exemplo do que considera manipulação.
Em 23 de outubro, o jornalista Andrew Fishman, ouvido pelo The Intercept, falou em indícios circunstanciais e citou a Meta AI e o bloqueio da conta de anúncios de Lula. Sobre o alcance de Nikolas, que superaria o de celebridades globais, ressalvou que sem acesso ao algoritmo não é possível ter certeza. A Meta respondeu ao site que cada incidente tem explicação documentada e que nenhum reflete direcionamento político.
A Novara Media, do Reino Unido, relatou em 28 de setembro a desativação temporária dos anúncios de Lula e associou o episódio ao teste da Anistia Internacional. O texto situa a desativação numa sexta-feira, enquanto os veículos brasileiros a datam de 23 de setembro, uma quarta. Em 21 de outubro, a Al Jazeera ouviu Daniela da Silva, diretora da CTRL+Z, segundo quem coordenadores de campanha relataram queda do alcance orgânico e gastavam mais de 70% do orçamento de impulsionamento na Meta.
A alegação envolvendo Fernando Cerimedo
Em 14 de outubro, a Revista Fórum publicou declarações da advogada Nádia Beller, ex-companheira do consultor político argentino Fernando Cerimedo. Em entrevista ao programa Ventana del Mundo, do canal mexicano 14, em 12 de outubro, Beller afirmou que Cerimedo atuaria na campanha de Flávio e que a equipe dele agiu junto à Meta para reduzir o alcance de Lula. Segundo ela, Cerimedo lhe disse mais de três vezes que tinha boas relações com a empresa e podia derrubar ou devolver páginas.
Trata-se da alegação de uma única pessoa, feita numa única entrevista. Beller disse não ter dúvida dessa atuação, mas não apresentou prova publicamente, e não foi localizada confirmação por outro veículo. A reportagem da Fórum não traz resposta de Cerimedo nem da Meta à acusação; reproduz apenas a manifestação geral da empresa ao TSE, que nega favorecer candidatos. Segundo a revista, Cerimedo está preso na Bolívia, acusado de ser o mandante de uma tentativa de assassinato contra Beller.
O que o campo de Flávio apresentou
As denúncias da campanha de Flávio e do PL também trouxeram números, produzidos pela própria campanha: os cerca de 4.600 anúncios de mais de 50 páginas apontados em julho, os 1.525 perfis que atuariam de forma coordenada e os 6.606 anúncios negativos citados na AIJE de 23 de outubro. Esses casos estão na seção seguinte, com o pedido sobre o canal Exército do Lula e a ação do PL sobre o uso de dados do Gov.br em mensagens do governo enviadas pelo WhatsApp.
Órgãos e entidades que cobraram a Meta
O Comitê de Supervisão da Meta, os relatores especiais da ONU, o MPF e a deputada Erika Hilton não apresentaram indícios próprios, mas basearam suas cobranças nos casos acima. Os detalhes estão nas seções sobre o Ministério Público e sobre as reações internacionais.
As acusações da campanha de Flávio contra a Meta e contra Lula
A coleta de denúncias inclui também queixas do campo de Flávio Bolsonaro, que acusa a Meta de deixar circular uma estrutura de anúncios pagos contra o candidato e de não agir contra canais e perfis pró-Lula. Essas acusações recebem aqui o mesmo tratamento: são alegações da campanha, apresentadas à Justiça, com números produzidos por ela.
Em 17 de julho, ainda na pré-campanha, o PL pediu ao TSE investigação sobre uma suposta rede de páginas que atacava Flávio. Segundo a Band, o presidente do TSE mandou a Meta preservar os dados desses perfis em 29 de julho. Pelo levantamento do partido, mais de 50 páginas teriam publicado cerca de 4.600 anúncios, com perto de 250 milhões de visualizações e quase R$ 3 milhões, pagos inclusive em moeda estrangeira. O desfecho desse pedido não foi localizado.
Em 8 de outubro, a campanha de Flávio apresentou ao TSE uma ação pedindo que a Meta suspendesse 32 perfis de apoiadores de Lula em 24 horas e retirasse 221 publicações, além de bloquear temporariamente a ferramenta de coautoria. A informação é da Revista Fórum, veículo crítico ao candidato, que teve acesso à íntegra. A campanha afirma ter mapeado 1.525 perfis conectados que atuariam de forma coordenada após o primeiro turno.
Em 17 de outubro, segundo o Midiamax, a campanha pediu para entrar como parte interessada na ação de Lula contra a Meta. Alegou que as falhas dos algoritmos o atingiram com mais intensidade que a Lula e que a plataforma permitiu quase 4 mil anúncios negativos pagos pela campanha adversária, com até R$ 1,26 milhão, além de uso de IA sem identificação. O Poder360 registrou as queixas dos dois lados no processo.
Em 20 de outubro, a campanha de Flávio apresentou outra AIJE contra a chapa de Lula, por uso de dados oficiais em mensagens enviadas pelo WhatsApp. Segundo o DGABC, a ação acusa o governo de usar informações do Gov.br e de órgãos como INSS e Receita Federal para direcionar mensagens personalizadas sobre programas como Bolsa Família e Farmácia Popular, pela conta GovBR. O pedido cita um contrato com o Serpro que prevê 170 milhões de notificações por mês. A Meta não é alvo dessa ação; o WhatsApp aparece como meio de envio. O desfecho do pedido de liminar não foi confirmado nas reportagens abertas para esta apuração.
Em 22 de outubro, a pedido da campanha de Flávio, o presidente do TSE deu 24 horas para Meta, Google e X informarem se houve ação coordenada a partir do Exército do Lula em buscas, sugestões e hashtags entre 18 e 20 de outubro. A campanha também questionava uma resposta anterior da Meta que não havia encontrado comportamento coordenado no canal.
Em 23 de outubro, a coligação de Flávio apresentou uma ação de investigação judicial eleitoral (AIJE) pedindo a cassação da chapa de Lula por abuso de poder e uso indevido dos meios de comunicação. Segundo o Congresso em Foco, a peça cita 6.606 anúncios negativos contra Flávio, com gasto estimado entre R$ 1,54 milhão e R$ 2,49 milhões, dos quais 1.818 teriam sido removidos pela Meta e 893 continuariam ativos em 21 de outubro.
Do lado das organizações pró-Lula, a acusação simétrica é a de que a Meta teria restringido por conta própria perfis cuja retirada a campanha de Flávio pediu na Justiça, antes de qualquer decisão. Um cruzamento citado pelo ICL Notícias encontrou 16 contas comuns às duas listas. Nenhuma das duas versões foi confirmada por decisão judicial até a data desta apuração.
As decisões do TSE sobre a interferência da Meta
As decisões do Tribunal Superior Eleitoral são a parte mais sólida do caso, porque são atos oficiais com texto conhecido. Elas não declaram que houve interferência da Meta; determinam medidas preventivas de isonomia e pedem explicações. A seguir, a sequência por relator.
Marco Aurélio Bellizze: isonomia e multas
Em 10 de outubro, Bellizze deu 48 horas para a Meta explicar a acusação de seletividade algorítmica e informar se houve restrições de distribuição, exclusões de recomendação ou bloqueios geográficos no perfil de Lula, segundo a Agência Brasil, republicada pelo Brasil de Fato. O ministro observou que os fatos ocorriam em ambiente controlado só pela empresa.
Em 15 de outubro, veio a liminar central. Segundo o Poder360, que republicou o texto da Agência Brasil, Bellizze proibiu a Meta de reduzir de forma desigual a distribuição, as recomendações ou as buscas das campanhas de Lula e Flávio e exigiu os mesmos critérios de IA para os dois, sob multa diária de R$ 500 mil. A CartaCapital detalhou os prazos: reavaliar bloqueios de anúncios, auditar os 255 perfis apontados pelo Democracia em Xeque e repor impulsionamentos até 21 de outubro.
O ministro não mandou derrubar as 255 contas: deu à Meta prazo para verificar cada uma e comprovar a rotulagem de IA, segundo o Metrópoles. Também pediu informações sobre as medidas aplicadas ao perfil de Nikolas Ferreira desde 16 de agosto.
Em 18 de outubro, após novos pedidos, Bellizze deu 24 horas para a Meta comprovar o cumprimento, exigiu relatórios individualizados em português e elevou a multa diária para R$ 1 milhão em caso de descumprimento, como relatou o Metrópoles. Em 20 de outubro, a Meta respondeu que tinha analisado 1.204 publicações apontadas no processo, das quais 720 foram removidas, 270 já tinham rótulo de conteúdo sintético e 214 não tinham relação eleitoral. Segundo a CartaCapital, a empresa também alegou um limite técnico para restringir a recomendação de posts colaborativos apenas no perfil do candidato e pediu para não ser multada.
Plenário: unanimidade e revisão humana
Em 16 de outubro, o plenário do TSE referendou a liminar por unanimidade, com validade até 25 de outubro. Segundo a CNN Brasil, a Meta passou a só poder restringir contas de anúncios das campanhas após revisão humana, e bloqueios automáticos devem ser revistos em até duas horas. O Imirante listou os votos dos ministros Floriano de Azevedo Marques, André Mendonça, Estela Aranha, Villas Bôas Cueva, Nunes Marques, Dias Toffoli e do relator. O título de uma das reportagens do ICL Notícias fala em maioria, mas o próprio texto registra a unanimidade.
Ricardo Villas Bôas Cueva: alcance, ranqueamento e o vídeo de Cabelinho
O corregedor-geral eleitoral conduz as AIJEs das duas campanhas. Em 22 de outubro, deu 12 horas para a Meta explicar o alcance de Nikolas, Marçal, Flávio e Gaspar. Em 23 de outubro, segundo a CNN Brasil, deu 24 horas para Meta e X entregarem relatórios sobre IA, distribuição de conteúdo político e anúncios, incluindo se perfis de Flávio e de Nikolas tiveram ranqueamento privilegiado, e mandou a revisão humana do vídeo de MC Cabelinho.
Há versões diferentes sobre a multa dessas ordens. O explicador da CNN Brasil informa que o descumprimento da ordem de 12 horas poderia render multa de R$ 100 mil por hora de atraso, o equivalente a R$ 2,4 milhões por dia. Já a nota do TSE sobre a ordem de 24 horas, conhecida pelo resumo da busca, fala em multa diária de R$ 500 mil por empresa. Não ficou claro, nas fontes consultadas, se os valores se referem a decisões distintas ou se houve erro em uma das versões.
Em 24 de outubro, a CNN Brasil informou que Cueva proibiu a Meta de impulsionar manualmente as contas de Flávio e Nikolas, por intervenção humana ou configuração algorítmica específica, até o fim do segundo turno. O Poder360 acrescentou que a Meta deveria enviar relatórios de alcance a cada seis horas sobre Nikolas e Marçal e não recomendá-los a quem não os segue. O ministro escreveu que a medida não antecipa conclusão sobre irregularidades.
Kassio Nunes Marques: reunião e o canal Exército do Lula
O presidente do TSE atuou em três frentes ligadas à Meta: a ordem de preservação de dados pedida pelo PL em julho, a reunião de 15 de outubro sobre a Meta AI e os pedidos de 22 de outubro sobre o Exército do Lula. Em 23 de outubro, segundo a Agência Brasil, a Meta respondeu que a análise técnica não encontrou violações no canal. O Brasil de Fato informou que a conclusão era preliminar e que a empresa pediu mais cinco dias para responder por completo; Google e X também disseram não ter encontrado irregularidades.
MPF, MPE e Procuradoria-Geral Eleitoral
O Ministério Público atuou em duas esferas: a federal, que trata de direitos dos usuários e liberdade de expressão, e a eleitoral, que acompanha o cumprimento das ordens do TSE.
No campo federal, a Procuradoria Federal dos Direitos do Cidadão abriu procedimento em 13 de outubro, após representação de Artigo 19, Conectas, Sleeping Giants Brasil e CTRL+Z. Segundo o ICL Notícias e o Times Brasil, Meta e X tiveram cinco dias para explicar se os bloqueios foram judiciais ou automáticos e se houve aviso e canal de recurso. Dos relatos, 72 foram selecionados para análise individual.
Em 21 de outubro, considerando insuficientes as respostas, o MPF enviou à Meta uma recomendação com 12 medidas, segundo o Núcleo, com prazo de 48 horas para resposta e 30 dias para relatório conclusivo. No mesmo dia, a Procuradoria da República no Rio Grande do Sul ajuizou ação civil pública na 26ª Vara Federal de Porto Alegre. O pedido inclui restabelecimento de contas, proibição de bloqueios decididos só por algoritmo, revisão humana e multa de R$ 500 mil por dia por conta. Decisão liminar não foi localizada.
Ao noticiar a ação, o Brasil de Fato registrou o relato de uma farmacêutica com perfil privado cujos Stories, segundo ela, caíram de 80 a 90 visualizações para 5 ou 6 depois que passou a cumprir as missões do grupo Exército do Lula. É um relato individual, sem verificação técnica.
No campo eleitoral, a Procuradoria-Geral Eleitoral pediu em 15 de outubro que o TSE obrigasse a Meta a analisar em 24 horas os 255 perfis que, segundo o Democracia em Xeque, promoviam Flávio e atacavam Lula. Segundo o Metrópoles, dos 35 perfis citados inicialmente, a Meta desativou 7, outros 4 já estavam fora do ar e 24 não violavam regras, resposta considerada insuficiente pela PGE.
Em 21 de outubro, a PGE concluiu que a Meta descumpriu parte das determinações do TSE. Há divergência no número. O Metrópoles fala em ao menos 5 de 17 itens descumpridos e em pedido de multa de R$ 500 mil por dia. O Poder360 lista quatro pontos: processamento das denúncias, informe dos anúncios suspensos, informe das providências e relatório sigiloso em português. A decisão do TSE sobre essa multa não foi localizada.
Reações internacionais
O caso ultrapassou as fronteiras do país. Em 20 de outubro, o Comitê de Supervisão da Meta, órgão independente financiado pela empresa, apontou falhas recorrentes na aplicação de restrições às contas de anúncios da campanha de Lula e cobrou regras mais claras em eleições, segundo o Metrópoles. A versão da AFP, publicada pela CartaCapital, registra que o comitê viu falhas por excesso e por omissão, no Brasil e nos Estados Unidos. A Revista Fórum destacou que o comunicado cita restrições técnicas a contas de Lula e de apoiadores e cobra métricas públicas sobre a moderação em eleições.
Em 21 de outubro, relatores especiais da ONU cobraram que a Meta avalie se seus sistemas de moderação, recomendação e IA restringiram de forma desproporcional um dos candidatos do segundo turno, com explicações e reparações. Segundo a Agência Brasil, o comunicado não cita nomes. Os especialistas são nomeados pelo Conselho de Direitos Humanos, mas não falam em nome da organização, e a manifestação não tem poder vinculante.
Segundo o Brasil de Fato, o texto foi assinado por quatro relatores especiais e pelo Grupo de Trabalho sobre Empresas e Direitos Humanos e afirma que informações, inclusive de funcionários da Meta, sugerem que contas de um dos lados foram afetadas de forma desproporcional. O DGABC reproduziu a lista de incidentes da nota, entre eles interrupções na conta de campanha de um candidato e diferenças entre partidos na geração de imagens por IA e na busca de canais do WhatsApp.
Em 22 de outubro, deputados democratas dos Estados Unidos enviaram carta a Mark Zuckerberg. Segundo a CNN Brasil, o documento foi assinado por 12 deputados e pelo senador Bernie Sanders e pede respostas a seis perguntas até 4 de novembro, incluindo acesso de auditor independente a dados internos. A Agência Pública acrescenta a pergunta sobre eventuais contatos da empresa com o governo Trump a respeito do Judiciário brasileiro.
Depois da votação, em 26 de outubro, Donald Trump disse, sem apresentar provas, que a eleição brasileira pareceu fraudada. O assessor especial Celso Amorim respondeu à CNN Brasil: “Só se ele está se referindo à Meta”.
A campanha de Lula anunciou denúncias à OEA e a observadores internacionais, segundo a Agência Brasil. Não foi localizada confirmação de abertura de apuração pela OEA; os detalhes estão na seção sobre as denúncias. No Brasil, cerca de 200 a 300 pessoas protestaram na sede da Meta em São Paulo em 19 de outubro, segundo o Poder360, e a deputada Erika Hilton (PSOL-SP) apresentou pedido de CPI sobre a atuação das big techs na eleição, com foco na Meta. Segundo o Metrópoles, o requerimento ainda dependia de assinaturas para a instalação da comissão.
O que a Meta diz
A posição da empresa foi consistente ao longo de outubro: houve falhas técnicas, algumas graves, mas nenhuma delas reflete direcionamento político. A manifestação mais completa é a nota de 16 de outubro, que lista os incidentes e suas causas: a conta de anúncios de 23 de setembro (filtro antifraude, pouco mais de uma hora), a falha global de visualizações de 7 de outubro, o bug de impulsionamento de 9 e 10 de outubro e a brecha na Meta AI, corrigida no mesmo dia.
Na mesma nota, a Meta afirmou que cerca de 70% das restrições às contas de Lula vieram de decisões do próprio TSE. Esse percentual é da empresa e não foi verificado de forma independente nas fontes consultadas. A Meta também chamou a acusação de narrativa política e criticou as regras de responsabilização das plataformas por conteúdo de terceiros, em vigor desde 2025, que, segundo ela, aumentam o risco de remoções indevidas.
Ao TSE, a empresa declarou em 12 de outubro que repudia a premissa de favorecimento e que seus sistemas não operam segundo critérios ideológicos. Em 20 de outubro, disse que não houve desídia nem resistência ao cumprimento das ordens, informou a criação de revisão humana em até duas horas para suspensões automáticas de contas de anúncios das campanhas e admitiu que erros podem ocorrer, segundo o Diário do Nordeste.
Sobre os bloqueios por IA, a explicação é a de que aplicativos de edição inserem sinais que a plataforma lê automaticamente para cumprir a resolução do TSE. Sobre alcance, a de que o engajamento, e não o número de seguidores, define a distribuição. Sobre preços de anúncios, a de que o valor sai de leilão. A empresa não esclareceu, nas respostas registradas pela imprensa, se há revisão humana em todos os bloqueios.
Em 16 de outubro, segundo a Agência Brasil, a Meta também recusou um pedido do governo federal para criar um canal de denúncias de ataques e bloqueios de contas de jornalistas, alegando complexidade técnica, jurídica e operacional.
O que ainda não se sabe
O segundo turno ocorreu em 25 de outubro. Segundo o TSE, Lula foi reeleito com 51,79% dos votos válidos, contra 48,21% de Flávio, que disse não reconhecer o resultado e pedir a anulação da votação, segundo o Metrópoles. O fim da votação não encerra os processos. Até 28 de outubro, seguem sem desfecho conhecido as duas AIJEs, a de Lula contra a chapa de Flávio e a de Flávio contra a de Lula, ambas com o corregedor Cueva, que abriu investigação sem reconhecer irregularidades.
Também não se conhecem o resultado da revisão humana do vídeo de MC Cabelinho, a decisão do TSE sobre o pedido de multa da PGE, uma eventual liminar na ação civil pública do MPF em Porto Alegre, a resposta completa da Meta sobre o Exército do Lula nem a resposta à carta dos parlamentares americanos, com prazo até 4 de novembro.
A questão central continua aberta: se os episódios reconhecidos pela Meta foram falhas independentes, como diz a empresa, ou um padrão com efeito desigual sobre um dos lados, como sustentam a campanha de Lula e as organizações denunciantes. Só os dados internos de distribuição, pedidos pelo TSE, pelo MPF e pelos parlamentares dos Estados Unidos, permitiriam responder com segurança. Até a data desta apuração, esses dados não foram tornados públicos e a tese de interferência da Meta deliberada não foi comprovada por nenhuma decisão.
Lista das principais matérias sobre o caso
- 22/08/2026 – Revista Fórum – Meta derruba site Brasil Fora da Caverna no Instagram às vésperas das eleições
- 25/08/2026 – Anistia Internacional – Brazil: Amnesty International experiment exposes Meta’s failure to catch election-related disinformation ads on Facebook
- 18/09/2026 – Poder360 – Meta aprova anúncios eleitorais falsos gerados por IA, diz estudo
- 23/09/2026 – Metrópoles – Meta derruba perfil de série de Porchat sobre Caso Master e Lagoinha
- 23/09/2026 – Poder360 – Meta restaura perfil com vídeo de Porchat sobre Vorcaro e políticos
- 23/09/2026 – CartaCapital – Meta recua e restabelece vídeo com Porchat sobre as relações entre Vorcaro e Flávio Bolsonaro
- 23/09/2026 – ICL Notícias – Página do ‘Revelando’ voltou ao ar por causa da pressão, diz Porchat
- 24/09/2026 – Poder360 – Campanha de Lula recorre contra bloqueio de anúncios na Meta
- 24/09/2026 – ICL Notícias – Meta é alvo de denúncia ao MPF após derrubada de perfil da série Revelando
- 28/09/2026 – Novara Media – Facebook Blocks Lula’s Campaign Ads Just Days Before Brazil Election
- 02/10/2026 – Mídia Ninja – Às vésperas da eleição, Meta remove publicação da Mídia Ninja sobre embaixada dos Estados Unidos no Brasil
- 03/10/2026 – Agência Pública – Quase mil anúncios sobre Lula e Flávio na Meta foram pagos em dólar
- 06/10/2026 – Brasil de Fato – Instagram derruba perfis dos DCEs da UFPR e UTFPR
- 06/10/2026 – Agência Pública – Plataformas mantêm anúncios e recomendações políticas irregulares no dia da votação
- 10/10/2026 – CNN Brasil – Campanha de Lula acusa Meta de interferir nas eleições em favor de Flávio
- 10/10/2026 – Poder360 – TSE dá 48 horas para Meta explicar “restrições” ao perfil de Lula
- 11/10/2026 – Brasil de Fato – TSE manda Meta esclarecer restrições a postagens da campanha de Lula
- 11/10/2026 – Malay Mail (AFP) – Brazil’s Lula accuses Meta of election interference
- 13/10/2026 – CNN Brasil – Meta reconhece erro em anúncios de Lula, mas nega viés no algoritmo
- 13/10/2026 – Metrópoles – Meta nega interferência e diz que falha técnica global travou views de Lula
- 13/10/2026 – Revista Fórum – Meta censura mais de 1.100 perfis de apoio a Lula durante as eleições, denuncia organização
- 13/10/2026 – Brasil de Fato – Meta remove 13 postagens com críticas a Flávio Bolsonaro sobre serviço público
- 14/10/2026 – Núcleo – IA da Meta favorece criação de imagens de Flávio Bolsonaro
- 14/10/2026 – CartaCapital – IA da Meta bloqueia cartaz de Lula com número 13, mas gera imagens de Flávio Bolsonaro
- 14/10/2026 – Agência Brasil – Campanha de Lula vai ao TSE após IA da Meta restringir buscas
- 14/10/2026 – Congresso em Foco – WhatsApp sugere Tropa do Flávio ao pesquisar Exército do Lula
- 14/10/2026 – ICL Notícias – MPF investiga Meta após mais de mil denúncias de bloqueios nas eleições
- 14/10/2026 – O Liberal – Campanha de Lula vai denunciar Meta para observadores internacionais, ANPD e OEA
- 14/10/2026 – Poder360 – Após reunir 12 países, Lula chama observadores do TSE para tratar da Meta
- 14/10/2026 – Brasil de Fato – Campanha de Lula aciona TSE contra Meta e cria canal para denúncias de censura nas redes
- 14/10/2026 – Intercept Brasil – ENTREVISTA: ‘A Meta está sabotando as eleições’, diz Letícia Cesarino
- 14/10/2026 – Revista Fórum – Cerimedo atua na campanha de Flávio Bolsonaro e agiu com Meta para reduzir alcance de Lula, diz ex
- 15/10/2026 – Fast Company Brasil – IA da Meta gerou cartaz com Flávio 22 e barrou Lula 13; empresa é questionada no TSE
- 15/10/2026 – Poder360 – TSE manda Meta tratar Lula e Flávio igualmente sob multa de R$ 500 mil
- 15/10/2026 – Agência Pública – Meta barra mais conteúdos pró-Lula e progressistas que pró-Flávio, aponta levantamento
- 15/10/2026 – Metrópoles – PGE pede apuração de 255 perfis suspeitos de promover Flávio e atacar Lula
- 15/10/2026 – Metrópoles – Ministro do TSE dá 24h para Meta apurar perfis suspeitos de IA pró-Flávio
- 15/10/2026 – Núcleo (republicação da Pública) – Como a Meta está derrubando alcance de conteúdos nas eleições
- 16/10/2026 – Poder360 – Meta nega interferência nas eleições brasileiras
- 16/10/2026 – CNN Brasil – TSE mantém decisão que barra interferência da Meta no conteúdo eleitoral
- 16/10/2026 – Brasil de Fato – Meta reconhece, em mensagens internas, prejuízo a Lula e sugestão irregular do perfil de Flávio Bolsonaro nas buscas
- 16/10/2026 – Al Jazeera – Meta employees say Lula’s accounts restricted in Brazil election: Report
- 17/10/2026 – Midiamax – Flávio aciona TSE contra Meta por ataques patrocinados de Lula
- 17/10/2026 – Metrópoles – Erika Hilton propõe CPI para investigar atuação das big techs nas eleições
- 18/10/2026 – Mídia Ninja – Meta na berlinda: 410 milhões de views de Nikolas no Instagram levantam suspeitas
- 19/10/2026 – Metrópoles – TSE dá 24 horas para Meta comprovar paridade nas campanhas de Lula e Flávio
- 19/10/2026 – CNN Brasil – Campanha de Lula pedirá investigação da Meta por suposto benefício a Flávio
- 19/10/2026 – ICL Notícias – Campanha de Lula decide pedir cassação de chapa de Flávio por ‘manipulação algorítmica’ da Meta
- 20/10/2026 – Metrópoles – Conselho da Meta identifica falhas recorrentes na moderação eleitoral
- 20/10/2026 – CartaCapital – Meta diz ao TSE que adotou medidas para garantir tratamento igual às candidaturas de Lula e Flávio Bolsonaro
- 20/10/2026 – Revista Fórum – Comitê de supervisão da Meta aponta falhas em moderação eleitoral e cita restrições a Lula
- 20/10/2026 – DGABC – PL aciona TSE contra Lula por abuso no uso de dados oficiais do governo para enviar mensagens
- 21/10/2026 – Metrópoles – MPE diz que Meta descumpriu parte das determinações do TSE e pede multa
- 21/10/2026 – Agência Brasil – ONU aponta falta de isenção da Meta em eleição brasileira
- 21/10/2026 – MPF – MPF aciona a Justiça para barrar bloqueios e restrições arbitrárias praticados pela Meta em redes sociais
- 21/10/2026 – A Tarde – Meta recebeu R$ 2 milhões com anúncios eleitorais irregulares
- 21/10/2026 – Diario de Pernambuco – Lula pede ao TSE cassação e inelegibilidade de Flávio por 8 anos por falta de isonomia da Meta
- 21/10/2026 – Brasil de Fato – Especialistas da ONU cobram Meta por restrições que prejudicaram campanha de Lula nas eleições
- 21/10/2026 – DGABC – Órgão da ONU diz que atuação da Meta pode comprometer eleição brasileira e pede reparações
- 21/10/2026 – Brasil de Fato – MPF aciona justiça para barrar suspensões e restrições contra contas que apoiam Lula, promovidas pela Meta
- 21/10/2026 – Agência Pública – TSE: políticos têm rede ‘paralela’ na Meta sem declarar à Justiça
- 21/10/2026 – Al Jazeera – Why social media has become an election issue in Brazil’s presidential race
- 22/10/2026 – CNN Brasil – Meta derruba vídeo de MC Cabelinho sobre Flávio Bolsonaro
- 22/10/2026 – Revista Fórum – TSE dá 12 horas para Meta explicar alcance de Nikolas, Marçal e Flávio Bolsonaro
- 22/10/2026 – Núcleo – Meta remove anúncio de clube de tiro que oferecia desconto para apoiar Flávio Bolsonaro
- 22/10/2026 – ICL Notícias – Meta lucrou com propaganda eleitoral irregular e restringiu perfis pró-Lula, diz dossiê
- 23/10/2026 – CNN Brasil – TSE dá 24 horas para Meta e X explicarem tratamento dado às campanhas
- 23/10/2026 – Poder360 – MPF questiona Meta sobre bloqueios de posts durante as eleições
- 23/10/2026 – Agência Brasil – Meta diz ao TSE que Exército do Lula não viola políticas da plataforma
- 23/10/2026 – Núcleo – Vazamento de novos documentos internos colocam (ainda) mais pressão na Meta
- 23/10/2026 – Congresso em Foco – Flávio denuncia Lula ao TSE e pede cassação por abuso nas redes
- 23/10/2026 – SBT News – Meta cobrou até 43% mais de Lula que de Flávio, diz estudo
- 23/10/2026 – Poder360 – Meta derruba posts por uso de IA na reta final da eleição; entenda
- 23/10/2026 – The Intercept – The Stakes of Brazil’s Presidential Election
- 24/10/2026 – CNN Brasil – TSE ordena que Meta não impulsione manualmente contas de Flávio e Nikolas
- 24/10/2026 – Poder360 – TSE manda Meta enviar relatórios a cada 6 horas sobre Nikolas e Marçal
- 26/10/2026 – CNN Brasil – Amorim rebate suspeita de Trump: “Só se ele está se referindo à Meta”
- 27/10/2026 – Agência Pública – Parlamentares dos EUA cobram Meta por tratamento desigual a Lula
Perguntas frequentes
A Meta interferiu na eleição de 2026?
Não há prova de interferência deliberada da Meta na eleição de 2026. A empresa reconheceu falhas técnicas que prejudicaram a campanha de Lula, como a conta de anúncios desativada em 23 de setembro e o bloqueio de impulsionamento de 9 de outubro, mas nega favorecimento. O TSE impôs regras de isonomia, e o relator escreveu, sobre a falha da IA, que não havia elementos de critério deliberado.
Quais indícios as denúncias apresentaram?
Os indícios mais citados são métricas de engajamento, testes com a Meta AI, mensagens internas de funcionários e levantamentos de entidades como CTRL+Z e Democracia em Xeque. A campanha de Lula comparou o alcance dos dois candidatos, e a de Flávio contou anúncios negativos pagos contra ele. Nenhum desses dados passou por auditoria independente, e o TSE não reconheceu interferência deliberada.
O que aconteceu com a IA do WhatsApp e o Flávio 22?
Em 13 e 14 de outubro, a Meta AI no WhatsApp gerava cartazes com Flávio 22 e recusava pedidos com Lula 13. Testes de Núcleo, CartaCapital e Fast Company reproduziram a diferença. A Meta chamou o caso de lacuna, disse que afetou os dois candidatos e que foi corrigido no mesmo dia, e passou a bloquear nome e número de candidatos.
O que o TSE decidiu sobre a Meta?
O TSE proibiu a Meta, em 15 de outubro, de tratar de forma desigual as campanhas de Lula e Flávio, sob multa diária de R$ 500 mil. O plenário confirmou a decisão por unanimidade em 16 de outubro e exigiu revisão humana antes de restringir contas de anúncios. Em 18 de outubro, a multa por descumprimento subiu para R$ 1 milhão por dia.
Quantos perfis foram bloqueados pela Meta na eleição?
A CTRL+Z reuniu cerca de 1.121 relatos de restrições, mas há versões que falam em 1.088. Os números são da própria organização denunciante. A Meta informou ao MPF ter restringido 206.910 conteúdos entre 1º e 5 de outubro, com base no silêncio eleitoral e na detecção de IA.
A campanha de Flávio também acusou a Meta?
Sim, a campanha de Flávio Bolsonaro acusou a Meta de permitir milhares de anúncios negativos pagos contra ele. Em ação de 23 de outubro, citou 6.606 anúncios, dos quais 1.818 teriam sido removidos, e pediu a cassação da chapa de Lula. Os números são da campanha e a ação segue sem decisão.




































