Capa Preta (Lourenço Mutarelli, da Comix Zone) – Resenha

Editora Comix traz em seu terceiro título um resgate histórico dos primeiros álbuns de Lourenço Mutarelli

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Resenha de Capa Preta, de autoria de Lourenço Mutarelli, da Editora Comix Zone

“Entre o nascer e o morrer existe algo, um momento efêmero, único, de um fascínio estúpido, que se chama vida.” – (Trecho da HQ Desgraçados)

Lorenço Mutarelli expõe as dores de sua alma em um verdadeiro marco da nona arte. Obra visceral sobre a humanidade e a vida.

Capa Preta é o terceiro projeto da Editora Comix Zone (Paracuellos, A Canção de Roland) que fez um verdadeiro resgate histórico no que tange aos quadrinhos nacionais. A obra compila os quatro primeiros álbuns de um dos grandes nomes dos quadrinhos e da nossa literatura contemporânea: Lourenço Mutarelli (Cheiro do Ralo, Diomedes).

O Contexto de Capa Preta e suas Histórias

Antes de falarmos dos álbuns que fazem parte de Capa Preta, precisamos apresentar um pouco do contexto sobre o qual as histórias foram concebidas. Pois saber disso, acaba nos ajudando a entender e principalmente absorver melhor a proposta destas histórias.

No final da década de 80, Lourenço Mutarelli trabalhava nos Estúdios Maurício de Sousa. Certo dia seus amigos / colegas de trabalho resolvem lhe fazer uma “brincadeira” no seu aniversário. Para tal, eles simularam um falso sequestro com Mutarelli, onde até mesmo chegaram a fazer roleta russa com ele. A brincadeira de muito mau gosto acabou por desencadear uma crise depressiva crônica. Mutarelli já era uma pessoa bem introvertida naquela época, e somado a esse acontecimento, o autor passou por momentos bem difíceis. (Se quiser mais detalhes, vale a pena ver essa entrevista que ele deu para o Dr.Drauzio Varella).

Assim, Mutarelli passou por tratamentos, tomou inúmeros remédios e afins para se recuperar. Mas mesmo com todos os tratamentos, o que lhe ajudou mesmo a superar essa fase foram os quadrinhos. Nessa fase triste de sua vida, ele acabou concebendo quatro álbuns: Transubstanciação (de 1991), Desgraçados (de 1993), Te Amo Lucimar (1994) e por último, A Confluência da Forquilha (1997). E são estes os quatro álbuns que estão compilados em Capa Preta. Albúns onde Mutarelli transformou sua dor em arte.

E detalhe: todos os quatro álbuns foram vencedores do Troféu HQ MIX.

Transubstanciação

Originalmente publicada em 1991 pela editora Dealer, Transubstanciação foi o primeiro álbum lançado por Lourenço Mutarelli. A trama tem como protagonista Thiago, o Poeta, como ele mesmo se define. Porém, para muitos, a sua alcunha é outra: Thiago, o Louco.

A obra aborda como Thiago enxerga (ou tenta) o mundo em que vive. Misturando sonho / realidade, Mutarelli nos presenteia com uma história que traz diversas reflexões e críticas ao modo de vida / sociedade que seriam ideais, ou pelo menos, que nos são impostos a pensarmos assim. E tudo isso é reforçado pelo traço pesado e “sujo”, que expõe assim o lado mais cru e doentio da humanidade.

O significado de Transubstanciação seria a transformação de uma substância em outra. Como por exemplo dentro do Catolicismo, quando o pão e o vinho se tornam o corpo e o sangue de Cristo. Ao acompanharmos a trajetória de Thiago, podemos ver que esse título é perfeito para essa história. Já que ela aborda a o tempo de passagem do ser humano pela Terra.

Transubstanciação é um quadrinho pesado e até mesmo indigesto, que toca nas feridas e as expõe ao leitor de maneira crua. Ou seja, logo de cara, Capa Preta já mostra a que veio, e que é praticamente impossível o leitor não ser fisgado pelo clima amaldiçoado e desesperador da obra de Mutarelli.

Desgraçados

Desgraçados foi publicado originalmente em 1993, pela Editora Vidente. E assim como em Transubstanciação, temos aqui uma leitura bem (ainda mais) pesada, e também a mais longa de Capa Preta. Em Desgraçados temos algumas histórias com alguns protagonistas, que depois acabam se intercalando e assim construindo uma narrativa consolidada. E o que une todos esses personagens? Assim como título já deixa bem evidente, são suas vidas realmente desgraçadas que acabam se encontrando em um mundo doente.

Dentro de Desgraçados, vamos ter abordagens realmente pesadas e espinhosas, das quais Mutarelli não tem receio em abordar. Assuntos espinhosos como religião, drogas, sexo, doenças e violência estão aos montes pelas páginas do álbum. E mais uma vez o traço do autor é bem carregado, forte e sujo, assim em conjunto com o texto, nos apresenta um mundo visceral de pessoas tentando viver suas vidas miseráveis, e falhando com maestria nisso.

Aqui não há floreios ou viradas ex-machina. Em Desgraçados, as coisas realmente são terríveis. É um álbum que atinge o leitor com um soco no estomago, e da qual a dor demora um bom tempo para passar. Uma obra indigesta, porém necessária. Pois ao lermos algo assim, podemos notar a sinceridade e os sentimentos do autor em cada página. A obra ainda traça alguns paralelos com os livros do apocalipse da Bíblia, para criar uma atmosfera ainda mais densa.

É como se conversássemos um pouco com a alma de Mutarelli, onde ele a expõe sem medo. Sentimento esse que passa para nós leitores, ao vislumbrarmos esse mundo pelos seus olhos, mas que ao mesmo tempo nos impacta e nos assusta, também nos mostra uma certa beleza poética em alguns momentos de dor e loucura. Raros momentos de felicidade em um mundo injusto e cruel.

Eu Te Amo Lucimar

O terceiro álbum de Mutarelli foi publicado originalmente em 1994 pela Editora Vortex. Eu Te Amo Lucimar nos apresenta os protagonistas Cosme e Damião, que são dois irmãos gêmeos. A obra vai tratar a questão do nosso “duplo”. Como se dividíssemos o nosso corpo e alma com mais alguém, a nossa contraparte. E para isso, Mutarelli nos presenteia com mais uma obra que toca em assuntos pesados e densos, porém, neste álbum temos algumas mudanças em relação aos seus trabalhos anteriores.

Eu Te Amo Lucimar conta com um traço menos carregado do autor, assim fazendo-o com maior leveza, usando um toque mais aquarelado e desenhos mais “limpos”. Porém, não pense que a história é leve. Pelo contrário, aqui temos uma história que vai dialogar muito com o nosso eu interior e assim nos revirar de cabeça para baixo em busca de algum sentido na loucura que é a vida humana.

À medida que a história avança, vamos nos deparando com uma narrativa instigante, assustadora e também poética. Mutarelli faz aqui um trabalho excepcional de arte, roteiro e nos mostra como ele tem total domínio do que ele quer passar ao leitor. Pois conforme a historia avança, ele vai inserindo novos elementos e personagens que constroem um plot muito interessante acerca da história dos irmãos Cosme e Damião.

Dentro desse álbum, vale destacar um capítulo que é um tanto perturbador. Existe um capítulo inteiro que é dedicado a explicar /mostrar o processo da morte do corpo humano. De verdade, é um momento de difícil leitura, porém, na mesma proporção, é igualmente genial. É impressionante você se deparar com páginas de tamanha qualidade e impacto. Não dá nem para descrever mais, apenas cada um poderá sentir isso na pele quando fizer a leitura. Sem dúvida alguma, um dos pontos altos de Capa Preta.

A Confluência da Forquilha

O último álbum de Capa Preta foi publicado originalmente em 1997 pela Editora Lilás. Aqui temos um artista plástico que está passando por uma grande crise criativa e que só consegue fazer a pintura de um mesmo rosto. Com família para sustentar, dívidas e afins, o artista acaba encontrando um lugar um tanto exótico que pode lhe ajudar, já que o lugar tem interesse em suas obras. Porém, é claro que as coisas não são tão simples assim.

Em a Confluência da Forquilha, Mutarelli nos mostra mais uma vez um mundo distorcido e sujo, no qual as pessoas estão simplesmente perdidas. Pessoas que querem apenas encontrar um sentido na vida, ou seja, elas apenas estão esperando algo (ou alguém) maior que as guie para algum lugar. Isso podendo ser por meio da religião, política ou sonhos / expectativas que colocamos sobre nós mesmos. Nessa obra vemos o que isso tudo por desencadear quando nos deixamos ser influenciados por essas diretrizes.

Mais uma vez Mutarelli dá um show de texto e arte, nos prendendo do início ao fim. A arte volta a ficar mais carregada, porém um pouco mais “contida” do que em Transubstanciação e Desgraçados. Ele nos impacta ao mostrar que a procura de um sentido para vida pode ser exatamente a perda desse sentido no meio do caminho.

A Edição da Comix Zone

A Editora Comix Zone fez um trabalho simplesmente impecável em Capa Preta. A edição conta com Capa Dura, 304 páginas e tem um belo acabamento gráfico, que valoriza em muito a arte excepcional de Lourenço Mutarelli. (A Edição pode ser adquirida aqui).

Além de toda a parte gráfica em si, a edição de Capa Preta conta com duas introduções mais do que especiais. Uma feita por Lucimar Mutarelli (a espeosa de Lourenço), que expõe seus sentimentos pelos quadrinhos e pelo seu marido em um texto emocionante. E por meio de suas palavras já podemos notar o quanto os quadrinhos de Mutarelli são importantes para o cenário nacional.

O outro texto fica por conta do poeta e escritor Ferréz, que é um dos sócios da Comix Zone junto com Thiago Ferreira. E além de sócio, Ferréz é um amigo de longa data de Mutarelli. (Há diversos vídeos na internet com os dois juntos que são sensacionais). E aqui no texto de introdução, Ferréz abre seu coração quanto as HQ’s e também ao seu irmão em palavras que realmente emocionam. Que bom que a Comix Zone conseguiu fazer esse resgate desses álbuns, pois isso tinha que chegar aos leitores.

Capa Preta, vale a pena?

O terceiro projeto da Comix Zone é um acerto que vai além da uma simples publicação. Ao resgatar esses quatros álbuns de Mutarelli em Capa Preta, muitos leitores puderem revisitar essas histórias e para outros foi a porta de entrada para conhecer um pouco da genialidade de um dos autores contemporâneos mais importantes no cenário nacional quanto a quadrinhos / literatura.

E sim, Capa Preta vale muito (ênfase total aqui) a pena. As quatro histórias deste álbum são verdadeiras obras-primas da nona arte. Poucas obras são tão impactantes ao leitor. A cada virada de página é uma nova surpresa, e um novo sentimento. A nossa alma é desconstruída e em seguida construída novamente à medida que avançamos pelas páginas com aqueles personagens tão vivos e trágicos.

Capa Preta é a síntese do que os quadrinhos podem passar quanto a mensagem e a essência. Uma obra carregada de sentimento, dor, angústia. E amor.


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