O Batman de Tom King (Renascimento até o Casamento) – Resenha

0
95

Em meados de 2016, a DC lançou a fase do “Renascimento” (Rebirth) da editora, onde buscava trazer de volta a essência do heroísmo que havia se perdido, principalmente na fase anterior da editora das lendas: Os Novos 52.

Primeiro foi lançado um One-Shot que era roteirizado por Geoff Johns, e dava esse pontapé inicial na nova fase do Renascimento. O resultado desse trabalho foi excelente, assim abrindo portas para os títulos da DC entrarem nesse contexto. Eis que o título do Batman foi dado para o roteirista Tom King, que vinha fazendo bons trabalhos como Visão (Marvel) e Grayson da própria DC. Então, vamos falar um pouco sobre esse run do autor a frente do Homem Morcego, e como isso culminou no famigerado arco do Casamento do Batman. E agora vamos resenhar se o Batman de Tom King vale a pena.

O Batman de Tom King (Renascimento até o Casamento) - Resenha- 01

O início da fase de Tom King foi com o arco “Eu Sou Gotham“, onde começava a todo a vapor, mostrando um Batman reconhecendo seus limites como herói em relação a super seres. Eis que surgem dois personagens para fazerem contraponto com isso que são: Gotham e Gotham Girl. Aqui já começamos a ter um breve vislumbre da linha que Tom King iria abordar mais para frente, já que vemos um Batman mais preocupado com seus limites do que de costume. E assim, passa a se perguntar se ele é mesmo o suficiente para proteger a cidade de Gotham.

O Batman de Tom King (Renascimento até o Casamento) - Resenha- 02

Depois tivemos um arco menos relevante que foi o “A Noite dos Homens Monstro” onde na verdade foi um crossover entre os títulos da “Bat-família” que lutaram contra Hugo Strange. Não que o arco seja ruim, mas ele tem uma abordagem bem mais aventuresca e leve,  onde o intuito é mais mostrar a interação entre os personagens do que realmente desenvolvê-los. Aqui além de King, diversos roteiristas participaram.

O Batman de Tom King (Renascimento até o Casamento) - Resenha- 03

O passo seguinte de Tom King talvez tenha sido o mais importante do seu run e também um tanto corajoso. No arco “Eu sou Suicida” ele aborda um lado mais humano do Morcego. Ele tem que ir em uma missão e assim reúne alguns vilões para ajudá-lo, incluindo a Mulher-Gato. Eles tem que ir até Santa Prisca, lar de Bane para tentar tentar ajudar a Gotham Girl. No meio da missão, Batman acaba expondo coisas do seu passado até então nunca explorados. Já sabemos da história do assalto, do colar de pérolas e das motivações de Bruce para se tornar o Batman, afinal isso já foi trabalhado diversas vezes ao longo de anos de publicações. Mas aqui, King aborda um lado mais intimo do personagem, onde ele chega a revelar que tentou suicídio quando criança e que virou o Batman não como um ideal para viver, mas sim como uma forma de morrer.

Ou seja, o Batman se arrisca todas as noites, um homem vestido de Morcego querendo encontrar um fim digno para sua vida. E isso é dito de uma maneira muito sensível, mostrando um lado frágil do herói. Ele diz isso numa espécie de carta para a Mulher-Gato, já que ela seria a única pessoa que o entenderia, já que eles pertencem ao mesmo mundo. E a conversa deles segue essa linha de cartas enquanto a trama segue, e é muito bonito todos os dizeres de um para o outro, assim abrindo portas para o coração de ambos. Tom King realmente caprichou nos diálogos que soam quase poéticos, melancólicos porém sinceros e muito bonitos. Isso reflete ainda mais num mini arco “Os Telhados” onde King mostra ambos cedendo aos desejos enquanto eles perambulam noite pelos telhados de Gotham. Aqui é um verdadeiro conto de amor, muito bonito e sensível, mostrando toda a química entre o casal, sejam por suas ações ou diálogos. Desta forma vamos vendo um Batman mais humano e não tão “inabalável” como estamos mais acostumados a ver. Eis um dos grandes diferenciais sobre o Batman de Tom King.

O Batman de Tom King (Renascimento até o Casamento) - Resenha- 04

Em um clima de revanche pelo o que ocorreu em Santa Prisca, o vilão Bane vem com tudo para Gotham para matar o Batman e quem quer que fique em seu caminho. Assim o próximo arco é “Eu Sou Bane“. O vilão vem com todas as suas armas e aqui temos um momento mais voltado ao lado da ação, mas ambos os personagens ganham peso aqui e acirram ainda mais a rivalidade entre eles. O arco serve muito para estabelecer o quanto os dois são poderosos estrategistas. Após um embate colossal, Bane cai mais uma vez pelas mãos do Batman. Mas essa não seria a última vez que o vilão maquinaria contra o Homem Morcego. O arco não é épico, porém é bem trabalhado pois vemos as motivações de ambos os lados para ganhar. Bane é trabalhado de uma maneira interessante, assim reforçando que ele não é apenas um brutamontes dependente do veneno.

O Batman de Tom King (Renascimento até o Casamento) - Resenha- 05

O arco seguinte é um especial, pois se trata de “O Bóton” um crossover entre o Batman e o Flash. Trata-se de um arco especial lidando com os eventos apresentados no One Shot do Renascimento. Ele funciona como uma espécie de sequência, já que os dois personagens são investigadores e acabam indo atrás das pistas que aparecem no final do Renascimento. Bruce e Barry ao investigarem isso acabam lidando com outros personagens que estavam interligados com o FlashPoint (Ponto de Ignição). Aqui temos uma das melhores batalhas dos quadrinhos dos últimos anos, que é o Batman x Flash Reverso. Apesar de muitos pessoas acharem que este arco se trata apenas de um spin-off e que não tem tanta relevância, tendo a discordar. O arco em si é muito bom, tanto a parte do Batman quanto do Flash. E para o Batman há um momento muito importante que está interligado a um personagem de Flashpoint (vocês já sabem quem é, certo? rs), e isso serve de gancho para o próximo momento a ser abordado por Tom King.

O Batman de Tom King (Renascimento até o Casamento) - Resenha- 11

Antes do próximo grande arco, Tom King fez um capítulo chamado de “Todo Epílogo é um Prelúdio” que é de extrema importância para a história do Homem Morcego.  Aqui temos um Batman mais pensativo e refletivo por tudo que foi apresentado até então. Em uma conversa com Gotham Girl temos um dos momentos mais marcantes do run de Tom King. O Batman admite que não é feliz. Pois a heroína quer seguir os passos do vigilante, e o Batman a alerta sobre o quão ruim pode ser esse caminho. No meio da conversa surgem diversos questionamentos existenciais. E dentre eles é: será que o Batman pode ser feliz? Somando isso mais os eventos de O Bóton, Bruce decide enfim dar um passo adiante daquilo que talvez seja o seu maior desafio até aqui: ser feliz. E para isso, ele pede Selina Kyle em casamento.

O Batman de Tom King (Renascimento até o Casamento) - Resenha- 06

Na sequência temos “A Guerra das Piadas e Charadas” onde como o próprio nome sugere, é um embate entre dois dos maiores vilões do Batman: Coringa x Charada. Antes de se casar, o Batman compartilha com a Mulher-Gato uma história do seu passado da qual ele não se orgulha (onde há um momento nebuloso no decorrer), e já que eles irão dividir uma vida juntos, o Morcego acredita ser importante que Selina saiba tudo ao seu respeito antes de tomar tal decisão. O arco é muito bom, cheio de bons diálogos, um Coringa insano e um Charada sagaz e cruel. O desfecho do arco é sensacional, onde um personagem de escalão D rouba a cena. Um arco cheio de reviravoltas, alianças e momentos de tensão a todo instante. Aqui temos uma exploração bem interessante acerca dos antagonistas do nosso herói. Após os fatos narrados por ele, Selina cede ao pedido, assim dizendo sim ao Morcego.

O Batman de Tom King (Renascimento até o Casamento) - Resenha- 07

Agora Tom King começa a fazer alguns mini arcos onde o Batman deve provar que seu relacionamento com a Mulher-Gato é forte o bastante para superar esses testes. O primeiro deles é um encontro com o passado do Morcego, onde Selina tem de confrontar alguém que não gostou muito da ideia do casamento: Talia Al Ghul. Devido ao romance que tiveram no passado, os dois tem uma forte ligação, ainda mais devido a Damian Wayne, filho de Bruce e Talia. Literalmente ela e Selina entram em combate não só por isso, mas também por conta de um assunto relacionado com o passado de Selina que pode comprometer a sua liberdade. Após isso, tivemos mais algumas outras provações, como a saída de casais entre Batman/ Mulher-Gato e Superman / Lois Lane. Aqui o tom da história é mais leve, descontraído, porém existem alguns questionamentos importantes e preocupações de ambos os lados, já que o Batman está noivo de uma vilã. No final o Superman e Lois Lane acabam aprovando e dando o aval ao casal para que sigam em frente. E numa espécie de “teste de fidelidade” (quase estilo João Kleber) o Batman é posto a prova pela Mulher-Maravilha em uma determinada missão. Mas o coração do Morcego fala mais alto e assim Diana também dá sua benção para o casal de Gotham.

O Batman de Tom King (Renascimento até o Casamento) - Resenha- 13

Ainda na mesma época foi lançada a Batman Anual número 2, que trazia a história “Qualquer Dias Desses…” que emula um futuro alternativo. A história é uma bela homenagem a toda a trajetória dos dois personagens. Em forma de recordatórios, ficamos sabendo como eles se conheceram (Na rua ou Barco? rs) e como foram os diversos encontros e situações que o Batman e a Mulher-Gato passaram. A narrativa é lindíssima, e tudo isso alinhado ainda a arte espetacular de Lee Leeks.

É muito difícil não se emocionar com essa história. Além de homenagear muito bem os personagens, é inegável a habilidade de Tom King em explorar os sentimentos dos personagens, assim os deixando tão criveis. A história é uma verdadeira aula da história deles e no final pode acontecer de escorrer uma lágrima. Se por ventura você não estava “shippando” o casal…. aqui isso se torna inevitável.

O Batman de Tom King (Renascimento até o Casamento) - Resenha- 08

Após algumas histórias soltas (que são legais), chega o arco “Todos Amam a Hera” onde como o nome sugere o foco é na vilã Hera Venenosa. Este aqui é o arco mais fraco do run de Tom King, pois tem muita coisa aqui que simplesmente não faz sentido. Muito disso se deve a falta de proporção das forças / poderes dos personagens. Acontecem alguns embates que soam até absurdo. E no final das contas o plano do arco era mostrar mais uma vez a força da união entre Bruce e Selina, já que eles superaram os poderes de dominação da Hera. A vilã atinge níveis de poderes absurdos, assim ficando algo que chega a incomodar um pouco, devido a essa desproporção. Porém no final, temos a lição do arco que é: O amor é o mais forte dos laços. Mas o desenvolvimento poderia ter sido melhor, fica então a ressalva quanto a esse arco.

Porém na sequencia temos uma história simples, porém linda com a Mulher-Gato. Na trama de “Noiva ou Ladra“, Selina precisa escolher o vestido certo para o grande dia. Mas como sabemos, ela desde muito tempo tem sido uma ladra (e das melhores) e assim ela sai escondida pela noite de Gotham mas não para comprar o vestido, e sim para roubá-lo. Durante toda essa noite vamos acompanhando ela como se fosse uma espécie de despedida dessa vida para entrar numa nova etapa com o casório. É lindo ver ela se divertindo enquanto escolhe qual vestido combina com ela. E aliado a isso vamos tendo várias lembranças dela com o Batman, assim reforçando ainda mais a paixão entre os dois. A maneira quase poética que Tom King faz essa história é realmente incrível. Emocionante na medida certa.

O Batman de Tom King (Renascimento até o Casamento) - Resenha- 09

O Presente” é o próximo arco e este foi uma grata surpresa. Na trama o Gladiador Dourado fica sabendo do casamento e quer presentear os pombinhos. Porém a ideia de presente do nosso herói não sai bem como esperado. Como ele é um viajante do tempo, ele cria uma realidade onde os pais do Bruce não morrem no Beco do Crime. Assim ele cria uma versão onde Bruce Wayne teria tudo que sempre quis, similar a clássica história de Alan Moore do SupermanO Homem Que Tinha Tudo“. Porém ao fazer isso, existem consequências que ninguém imaginaria. A trama é muito boa e Tom King consegue fazer um trabalho excepcional, mostrando que de um jeito ou de outro, Bruce Wayne encontraria o Batman. É um arco fechadinho que você até pode ler ele sozinho que ele se sustenta.

O Batman de Tom King (Renascimento até o Casamento) - Resenha- 14

Eis que as vésperas do grande dia, surgiu o spin-off: “Prelúdio Do Casamento“. Aqui Tom King faz apenas o comecinho e o final do arco, já que o meio dele é preenchido por outros autores que fazem histórias de diversos membros da Bat-família encarando alguns dos vilões de Gotham. A ideia gira em torno do Coringa saber que do casamento do seu querido Batman e não ter sido convidado. Assim ele quer ir a cerimonia de qualquer jeito, e para isso recruta alguns dos vilões para atacar eventos que estejam relacionados com o casamento do Batman. Assim temos algumas batalhas meio genéricas por assim dizer, mas o resultado até que é divertido. Mas sem dúvida, as melhores partes são as escritas por Tom King, onde temos um vislumbre do quão impactado o Coringa ficou com essa notícia.

O Batman de Tom King (Renascimento até o Casamento) - Resenha- 15

O Padrinho” é um arco focado no Coringa tentando aceitar a ideia da união entre Batman e Mulher-Gato. Ele chega a uma igreja qualquer e causando um verdadeiro terror para assim poder chamar a atenção do Morcego. E quando é dito terror, é ele em sua forma mais insana. O Coringa retratado aqui chega a ser verdadeiramente assustador e louco. No meio dos diálogos vemos o quão perturbado ele é. A ideia de “perder” o Batman causa um verdadeiro impacto no Palhaço do Crime.  É simplesmente genial como Tom King conduz a narrativa de maneira sempre tensa mas que ao mesmo tempo sai do lugar e vai desenvolvendo os personagens e as situações. A conversa dele com  a Selina é incrível  traz verdadeiras e profundas reflexões sobre a vida deles em relação ao Batman. Afinal de contas, pode existir um Batman.. feliz? Ou por ser feliz, o Batman simplesmente deixará de existir?

O Batman de Tom King (Renascimento até o Casamento) - Resenha- 16

O Casamento do Batman e Mulher-Gato” e eis aqui o grande dia. Nesta edição especial enfim temos a conclusão de todas as preparações para esse momento. Mais uma vez Tom King arrebenta na escrita, fazendo de forma quase poética toda a declaração de amor  dos dois como se fossem os votos de um para o outro. E há algumas páginas onde diversos nomes sagrados da nona arte e que já tiveram passagem pelo Batman deixam a sua arte. É uma bela homenagem, pois vemos tantas diferentes artes dos dois personagens e como o visual de ambos foi mudando ao longo dos anos, porém a essência e os sentimentos perduraram. Enquanto eles fazem essas declarações (cada página é um deles que toma a frente) em paralelo temos os preparativos finais de Bruce e Selina para o casamento. Toda a construção para a cerimônia é muito legal e o local que escolhem para tal não poderia ter sido melhor. Em meio a tudo isso, temos algumas cenas bem tocantes como a conversa entre Bruce e Alfred quanto a escolha de um padrinho.

Após todos os preparativos, temos enfim o momento do casamento e a conclusão do arco. Muita gente (mas MUITA mesmo) não gostou do desfecho da trama. Até dá pra entender o porque disso e toda a repercussão que isso causou. Porém, se você analisar tudo que foi sendo feito nos últimos números, realmente faz sentido de como a história concluiu. Não foi de graça ou feito apenas para chocar, foi feito da maneira que deveria ser. Mais uma vez, principalmente no arco o Padrinho, muitas dessas coisas foram plantadas e aqui estão os resultados. Quanto a parte do casamento, pra mim foi totalmente satisfatório e é algo que não tem um ponto final, pelo contrário, deixam pontas soltas para isso ser revisitado. Agora, uma ressalva fica quanto a última página, essa sim merece um “destaque” quanto a questionamentos. Pois se tudo isso que aconteceu foi realmente um plano desse personagem, Tom King vai ter um baita trabalho para explicar, pois esse plot twist é quase um absurdo. Mas se ele conseguir explicar… ok.

O Batman de Tom King (Renascimento até o Casamento) - Resenha- 12

Em suma, o Batman de Tom King é um material muito acima da média. É um trabalho corajoso que busca uma abordagem mais intimista e pessoal do Morcego. Levantando questões mais humanas do que heroicas, põe em cheque diversas escolhas que o Bruce Wayne tem pensar e tentar pelo menos uma vez na vida ser feliz de verdade. Em meio a tudo isso, temos ótimos arcos (claro que uma ressalva aqui ou ali) mas olhando de modo geral, percebe-se porque Tom King é um dos grandes nomes da atualidade quando se se trata da nona arte.

Todo o material citado neste post foi publicado no Brasil pela Editora Panini Comics, ou seja, se você correr pode ser que encontre todas as edições. E mais uma vez, vale muito a pena conferir a fase de Tom King a frente do Batman. Lembrando que o run dele a frente do título ainda não terminou, aqui abordamos apenas fase publicada até o momento no Brasil. Com uma narrativa que foge do comum e que traz uma nova perspectiva quanto ao Morcego, nós faz ver o quanto um quadrinho pode ser incrível quando cai nas mãos certas, de forma que nos faz refletir sobre diversos pontos que até então não tínhamos parado pra pensar. E não só sobre os personagens, mas talvez até sobre nós mesmos.

assinatura_andre