O Gambito da Rainha (Netflix) – Resenha

Entenda por que a minissérie foi o grande destaque da Netflix em 2020

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o gambito da rainha
Título Original: The Queen’s Gambit
Ano: 2020
Criação: Scott Frank, Allan Scott | Nº de Episódios: 07

É praticamente impossível ter passado por 2020 sem ouvir a palavra gambito. Afinal, O Gambito da Rainha, minissérie lançada pela Netflix no final de outubro, foi a terceira série mais assistida da Netflix nos Estados Unidos (também figura entre as mas vistas no Brasil) e fez as buscas por xadrez baterem recordes no Google.

A minissérie da Netflix adapta a obra homônima do escritor estadunidense Walter Tevis, lançada originalmente em 1983, também autor de O Homem Que Caiu Na Terra. Foi revelado recentemente que o ator Heath Ledger pretendia levar a obra às telonas, plano este interrompido por sua precoce morte em 2008.

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O Gambito da Rainha se passa na década de 60, nos Estados Unidos (ao menos maior parte) e narra a história de Elizabeth Harmon (Anya Taylor-Joy, de A Bruxa e Peaky Blinders), uma órfã que perde a mãe de forma trágica e até certo ponto misteriosa. Beth cresce em um orfanato com regras muito rígidas, tendo como única amiga Jolene (Moses Ingram), uma garota mais velha, que a ensina a se virar na instituição.

Beth ocasionalmente se depara com o zelador, Sr. Chaibel (Bill Camp), um homem solitário que passa horas afinco jogando xadrez. A menina se interessa pelo jogo e seus padrões e convence Chaibel a ensiná-la a jogar. Beth, por fim, mostra-se uma prodígio, e quando deixa o orfanato, anos mais tarde – embora ainda muito jovem – inicia sua jornada como enxadrista.

Ao longo do caminho, Beth Harmon depara-se com o preconceito de um universo ainda dominado por homens, mas os surpreende com seu talento e autoconfiança. Ela encontrará adversários formidáveis, como Harry Beltik (Harry Mealling) e Benny West (Thomas Brodie-Sangster), além de seu grande algoz, o campeão mundial Vasily Borgov (Marcin Dorociński).

Um “shounen clássico”? A jornada do herói em O Gambito da Rainha

A obra se popularizou em pouquíssimo tempo de lançamento e é ainda uma das mais assistidas da Netflix até este momento. O segredo para o sucesso de O Gambito da Rainha passa muito por o que alguns usuários das redes chamaram ser “um shounen clássico”, fazendo referência a animes de grande sucesso como Dragonball, Yu Yu Hakusho, Fairy Tail e outros, onde os protagonistas evoluem ao longo da jornada enfrentando adversários cada vez mais fortes – que por vezes tornam-se aliados – até chegarem ao topo da cadeia e enfrentar o mais poderoso.

A verdade é que esta mesma fórmula, de fato, é seguida a risca por O Gambito da Rainha; a fórmula clássica da jornada do herói, conceito estabelecido pelo antropólogo Joseph Campbell em 1949. Em resumo, o conceito estabelece início, meio e fim do desenvolvimento da história de um protagonista por meio de três instâncias: a Partida lida com o herói aspirando à sua jornada; a Iniciação contém as várias aventuras do herói ao longo de seu caminho; e o Retorno é o momento em que o herói volta a casa com o conhecimento e os poderes que adquiriu ao longo da jornada.

A série gira em torno de Beth, que passa, ao longo dos sete episódios, por todos estes momentos para trilhar seu caminho rumo ao lugar mais alto do mundo do xadrez. O cerne do desenvolvimento é a Iniciação, de onde podemos compreender, em O Gambito da Rainha, tratar-se do primeiro torneio que Beth participa, no Kentucky. A partir dali, a protagonista conhece seus inimigos, suas tentações, passa por atribulações (perdas e vícios), recebe aliados e fortalece-se para o ápice de sua jornada.

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A questão é que tal fórmula, de todo modo, só funciona uma vez que todos os elementos são bem desenvolvidos, e a adaptação da Netflix o faz com maestria. O roteiro é dividido perfeitamente entre os episódios, sempre com ótimos ganchos narrativos; a fotografia é precisa e o figurino e caracterização dão todo o clima sessentista aos personagens e locais onde são ambientadas as aventuras de Beth e companhia.

Ainda dentro das características técnicas, é preciso destacar: a trilha sonora fantástica, que embala a protagonista em todas as suas diferentes emoções e momentos; e as atuações. O elenco é um prato cheio de boas escolhas, com destaque para Thomas Brodie-Sangster como Benny e Marielle Heller como Alma, mãe adotiva de Beth. Em uma obra centrada essencialmente na protagonista, os dois coadjuvantes roubam a cena com papéis muito bem destacados e importantes para o desenvolvimento da personagem principal.

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E Anya Taylor-Joy? Merece um parágrafo exclusivamente para ela. A jovem atriz e modelo não poderia ter sido escolha mais fortuita para dar vida à Elizabeth Harmon, demonstrando uma versatilidade impressionante nesta personagem cheia de camadas. Beth nos hipnotiza e surpreende, um papel marcante e que, possivelmente, renderá indicação (e premiação) de Anya ao Emmy 2021 e demais prêmios relacionados.

Feminismo, vícios, Guerra Fria e depressão

O Gambito da Rainha também se destaca por adaptar em um momento muito relevante socialmente uma obra lançada há quase quarenta anos e que já tocava em algumas feridas como o patriarcalismo e problemas de saúde mental.

Beth é uma personagem singular, gênio, que naturalmente desenvolve uma camada de superioridade por ter plena de ciência de ser quase imbatível. A personagem surpreende seus adversários – basicamente todos homens, e grande maioria mais velha – deixando-os muitas vezes inconformados por perderem para uma mulher.

Fato é que a série poderia até se aprofundar mais no tema; tais insinuações são mais vistas no gestual e nas entrelinhas. Por outro lado, a obra opta e também acerta muito ao destacar a presença de Beth como uma figura feminina essencialmente forte e inspiradora – ponto inclusive destacado em um dos episódios no qual a garota revisita sua cidade natal. Imagine, em plenos anos 60, uma mulher – ou melhor, uma garota – desafiando homens em um território historicamente dominado por eles? Ela inspira, e mostra para as mulheres que vieram antes e depois dela de que elas podem ocupar o lugar que quiserem.

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Mas a genialidade tem seu preço. Beth se tornou, desde pequena, no orfanato, viciada em tranquilizantes. Posteriormente, passou também a viciar-se em bebidas alcóolicas, ainda menor de idade, seguindo o mesmo caminho de sua mãe adotiva. Embora sempre transpareça a quem está de fora que vive no controle da situação, a personagem constantemente se questiona sobre suas vulnerabilidades – sejam elas no jogo ou na vida pessoal – e, diante da insegurança, se entrega ao vício para desviar-se de seus demônios.

A construção destes aspectos fortalece o desenvolvimento da personagem, que poderia simplesmente ser apresentada como um clichê de protagonista-gênio; mas Beth é humanizada por meio desta vulnerabilidade ocultada, ganhando carisma e obtendo empatia do público (e dos personagens de quem ela se torna íntima).

A jornada da protagonista também é permeada, em plano de fundo, pelos desdobramentos da Guerra Fria. Há muito mais em jogo no embate entre Beth e os enxadristas russos do que o tabuleiro por si só pode dizer. O governo estadunidense (e outras entidades, como comunidades cristãs) passa a enxergar na garota uma oportunidade de confrontar o regime comunista soviético e usá-la como propaganda. Beth, por sua vez, sente-se alheia ao contexto político: seu único objetivo é tornar-se a melhor, tenha isso relação ou não com o contexto da guerra.

Todos esses detalhes enriquecem muito o desenvolvimento de O Gambito da Rainha, que se desdobra em uma obra impactante e maior do que poderia ser. Ao mesmo tempo que consegue entreter com o apelo mais puro possível, a minissérie se enobrece nas entrelinhas e no desenvolvimento dos personagens e ambientação.

Mas afinal, o que é o gambito da rainha?

Não poderíamos fechar essa resenha sem responder uma das perguntas mais realizadas nos buscadores em 2020. Não, não se trata dos cambitos (pernas finas) de alguém. Um gambito, do italiano gambetta é, na tradução mais razoável do contexto de jogo, um truque, ou uma jogada de risco no xadrez, que consiste numa abertura no jogo pela qual o enxadrista sacrifica uma peça para obter vantagem.

Enxadristas profissionais conhecem o risco de cair ou não num gambito – cair nele, no caso, seria atacar a peça propositalmente deixada à deriva pelo adversário. Isso pode implicar em um caminho livre para que este adversário chegue com mais facilidade – ou agilidade – ao rei e acabe com o jogo; mas, se mal executado, também pode se tornar um tiro no pé.

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Se ainda não conferiu O Gambito da Rainha, corra o mais rápido possível para a Netflix e não deixe de estar por dentro de uma das melhores obras já produzidas pela plataforma. Quem sabe você até não se arrisca em uma partidinha de xadrez?

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