Druk: Mais Uma Rodada (2020) – Resenha

Na busca por mais em suas vidas, quatro amigos bebem. Amizade, solidão, amor e a crise da meia-idade

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Ano: 2020
Título Original: Druk
Dirigido por: Thomas Vinterberg

Indicado ao Oscar 2021 nas categorias Melhor Filme Estrangeiro e Melhor Diretor, Druk: Mais Uma Rodada (ou simplesmente Druk) é um dos filmes sensações do momento e é estrelado pela dupla Mads Mikkelsen no elenco e Thomas Vinterberg na direção, que repetem a parceria realizada no inesquecível e impactante longa dinamarquês A Caça, de 2012.

Mads, que se mostra sempre brilhante, seja nos filmes “de casa” (dinamarqueses) ou nas obras hollywoodianas, vive aqui, novamente, um professor. Druk: Mais Uma Rodada nos apresenta a Martin (Mikkelsen), que leciona História em um colégio dinamarquês conceituado, mas enfrenta uma crise de meia-idade que se torna visível e inclusive passa a afetar seu desempenho no trabalho. Crise esta que já o afetava em casa.

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Na celebração do aniversário de 40 anos de um de seus colegas, Nikolaj, Martin desabafa sobre sua melancolia e encontra nos amigos (Tommy, professor de Educação Física; Peter, que leciona música; e o aniversariante, professor de Psicologia) consolo e reflexo de sua crise existencial. Nikolaj, então, comenta sobre a teoria do psiquiatra norueguês Finn Skårderud, que argumenta a existência da deficiência de 0,05% de álcool no organismo humano. A partir desta premissa, o grupo se desafia a ingerir tal quantia de álcool diariamente, sempre em horário comercial e nunca aos fins de semana.

A experiência se mostra surpreendente, e Martin e seus amigos reencontram, na pequena parcela de álcool, um refugo que o torna mais animados, encorajados e envolventes. No entanto, os amigos, percebendo os efeitos positivos, se desafiam a levar o experimento adiante, indo além da teoria do psiquiatra norueguês, levando seus corpos – e vidas – a consequências incalculáveis.

O álcool como objeto de transformação

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Druk, em dinamarquês, significa diretamente bebedeira. E esta seria uma forma bastante contundente, embora extremamente simplista, de resumir o filme. O impacto da bebedeira gradativa e inconsequente de Martin e seus colegas são sentidos em todos os seus aspectos, os positivos e, especialmente, negativos. É possível dizer que o álcool é um ator ativo no longa, com papel tão importante quanto os personagens que orbitam a trama.

Mas ele é, sobretudo, o elemento mágico de transformação das figuras, para o bem e para o mal. É através dele que Martin, Tommy, Peter e Nikolaj confrontam seus demônios da amargura e se sentem renovados, juvenis, como os estudantes que, no começo do filme, são exibidos na Corrida do Lago – uma corrida cujo principal propósito é beber o máximo de cerveja possível. Em um país recordista em consumo de bebidas por jovens, é possível dizer que, de certa forma, os professores de Druk invejam seus alunos e encontram, na animosidade do álcool, uma forma de resgatar algo que foi perdido e se conectar a eles – o que funciona até ponto X.

Mas é este mesmo álcool que também revela suas fragilidades, típicas e inerentes àqueles que atingem a meia-idade. A bebida não é suficiente para resolver seus problemas familiares, conjugais, de relacionamento; e como toda ferramenta mágica, cobra uma contrapartida. Ela quer mais de seu portador, e quanto mais ele cede, mais envolvido e dependente está.

Vinterberg consegue transitar perfeitamente entre os extremos de uma bebedeira, da euforia e a coragem despertadas de algum ponto inato na sobriedade à tragédia de não mais conseguir se manter sobre seus pés – num sentido acima do literal, que configura a perda de si mesmo. Não é mentira, entretanto, que no peso da balança o autor exalte mais positivamente seus efeitos, caminhando muito mais próximo a um desfecho de libertação, ainda que esta também cobre seu preço.

Além do álcool: Druk é sobre amizade, solidão e ânsia por viver

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Druk Directed by Thomas Vinterberg & Tobias Lindholm Produced by Sisse Graum Jørgensen Photo Credit Rolf Konow is a must

Se uma boa bebedeira é a força motriz de Druk: Mais Uma Rodada, suas nuances são sublimes e trazem reflexões diretas. O longa consegue orbitar sobre seus quatro protagonistas – com um foco maior em Martin, é verdade – e trazer diferentes dramas que giram especialmente em torno da solidão da meia-idade, da busca por uma felicidade que está dividida em pequenas frações de objetivos. A reconciliação com a esposa, o desejo de ter filhos, de ser um profissional bem-sucedido e reconhecido. De, sobretudo, deixar um legado – mais ainda não se sentir velho o suficiente para acha que tudo acabou e, mais do que isso, ainda ansiar pela vida, sabendo que ainda há algo esperando por nós.

A relação entre os quatro amigos é o ponto forte da trama; os personagens são muito bem desenvolvidos e dosados entre si. É impossível ficar indiferente a eles e até mesmo, em algum momento, desejar estar ali, com aquela turma, bebendo como se não houvesse amanhã apenas por um momento de euforia e de, quem sabe, um alívio em nossas dores e tormentos, ou criar coragem para fazer aquilo que nunca fazemos.

Os protagonistas de Vinterberg são tão humanos e vulneráveis, errôneos porém imediatamente queridos. Os desfechos do experimento do grupo nos trazem cenas hilárias, contemplativas, tristes e de autoanálise. Aliado a uma linda fotografia e trilha sonora, tudo no longa parece nos captar em essência, em um prazeroso deleite de se assistir.

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Druk: Mais Uma Rodada transcorre como uma bebedeira não danosa, mas de uma daquelas com os amigos das quais não esquecemos: durante ela, alternamos, em termos de emoção, entre risos e lágrimas com muita facilidade e, ao fim, na ressaca, ficamos a buscar respostas em nosso âmago. E o final de Druk, é, facilmente, um dos mais belos e catárticos do cinema recente. “What a life!”

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