Estou Pensando Em Acabar Com Tudo (Netflix) – Resenha

Um mergulho nada ortodoxo na mente, nas expectativas e frustrações de uma vida

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Estou Pensando Em Acabar Com Tudo – Resenha do filme original Netflix

Ano: 2020
Título Original: I’m Thinking of Ending Things
Escrito: Charlie Kaufman
Dirigido por: Charlie Kaufman
estou pensando em acabar com tudo

Charlie Kaufman é uma daquelas mentes deveras peculiares que surgem de tempos em tempos para provocar o status quo quando falamos sobre o modo de se contar histórias em Hollywood. Vencedor do Oscar pelo roteiro de Brilho Eterno de Uma Mente Sem Lembranças e do BAFTA por Quero Ser John Malkovich, o roteirista também dirige em Estou Pensando Em Acabar Com Tudo, baseado no livro homônimo de Iain Reid.

E aqui vemos mais uma obra que possui sua franca assinatura, com um modo pouco usual de se narrar uma película, repleta de efeitos lúdicos, textos subjetivos e inserções que nos fazem questionar o tempo todo a veracidade de cada cena em termos de linearidade ou factualidade. Dado isto, é até mesmo difícil categorizar e tentar resumir o filme, mas cá estamos nós para tentar faze-lo.

Estou Pensando Em Acabar Com Tudo tem início com a personagem inicialmente atribuída como Lucy (interpretada pela atriz e cantora Jessie Buckley), que prepara-se para viajar com seu recente namorado, Jake (Jesse Plemons), para conhecer os pais dele no interior. A personagem, logo de início, parece viver um dilema em sua mente sobre terminar ou não o relacionamento, enxergando a ausência de futuro naquela relação.

Ao longo da viagem, Jake e Lucy apresentam um desconforto sobre o quanto de fato conhecem um ao outro, embora, em diversos momentos, aprofundem-se em diálogos sobre suas respectivas visões de mundo. No entanto, Lucy, volta e meia, perde-se em pensamentos, dizendo a todo momento que “está pensando em acabar com tudo” e é constantemente questionada por Jake sobre suas divagações.

Ao chegarem a casa dos pais de Jake, as coisas começam a ficar realmente estranhas. Além do estranho comportamento dos pais (atuações brilhantes de Toni Collette e David Thewlis, inclusive), coisas bizarras começam a acontecer na casa, colocando a personagem em tons distantes da realidade e confusas em seus relatos. A partir deste momento, parecemos estar presenciando um sonho, uma vez que as sensações de tempo e cenário parecem difusas e se alternam o tempo todo. Em meio a isso, cenas constantes de um zelador em uma escola aparecem, a princípio desconectadas do que parece ser o eixo central da trama. Mas, no sequenciamento do filme, as pontas que parecem soltas começam a, de algum modo, se encaixar.

Sobre lembranças e tempo

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Como s outras obras de Kaufman, Estou Pensando Em Acabar Com Tudo possui uma perspectiva muito focada na mente como narrador principal e, sobre esta perspectiva, a linearidade e objetividade dos acontecimentos fica em segundo plano – propositalmente. Uma vez que nossa mente é a responsável pela forma que enxergamos os fatos, é normal que nossas lembranças se confundam tanto em cronologia quanto em factualidade, mesclando-se com emoções e projeções de desejos que se consumaram ou não.

De certo modo, Estou Pensando Em Acabar Com Tudo é sobre lembranças e tempo, sobre as conversas que nunca tivemos, traumas que nunca superamos e mágoas e sonhos que perduram na nossa cabeça até o fim da vida. E lidar com a mente como ela é pode ser bonito, a depender das memórias, mas também incrivelmente perturbador.

Estou Pensando Em Acabar Tudo: terror ou drama?

Também pode ser terrivelmente simplista enquadrar o longa em algum dos dois gêneros, mas não é exagero que ele flerta, durante todo filme (especialmente em todo período passado na casa dos pais de Jake), com ambos de modo até profundo. A sensação de incômodo/desconforto é constante, encontrada no silêncio entre os personagens, no comportamento bizarro dos pais de Jake, nas drásticas alterações de tempo e, especialmente, na sensação de desencontro, quando não temos a menor ideia do que está acontecendo e o suspense e aflição que podem ser refletidos no personagem de Jessie Buckley.

Por outro lado, há uma enorme (e muito bela) carga dramática encontrada nos diálogos entre os dois personagens principais, especialmente durante as viagens de carro, quando ambos trazem diversos questionamentos sobre vida, morte, a superfluidade das pessoas e coisas e até mesmo o sentido da existência. Diálogo que, ao final do filme, poderão fazer um sentido ainda maior, a depender da interpretação que o espectador tenha de toda película.

Por fim, uma experiência

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Estou Pensando Em Acabar Com Tudo é, sobretudo, uma experiência, uma obra de cunho interpretativo que, embora deixe sinais sobre seu real significado e objetivo, abre margem para diversas teorias, que podem ser das mais simplificadas a abrangentes envolvendo, inclusive, transtornos mentais ou estudos do sonhar, do lúdico. Se vale a pena? O resultado final só você poderá dizer. Mas arriscar a experiência, com certeza.

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