Kingdom Hearts 1 e 2 – Final Fantasy e Disney num jogo só! | Análise

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Arriscado! Essa é a palavra que define a iniciativa da Square Enix em lançar Kingdom Hearts. Hoje uma franquia conhecida – tanto por sua jogabilidade quanto por sua história -, a série enfrentou desconfiança no início. A ideia aqui é comentar sobre os dois jogos numerados, que fazem parte de um dos melhores catálogos da história, que é o do PS2. Os jogos também foram lançados para as duas gerações seguidas, mas o console aqui é o de menos, vamos falar dos jogos em si!

Jogabilidade de um, enredo do outro

A primeira coisa que dizem quando o assunto é Kingdom Hearts é o chamativo ‘É uma mistura de Final Fantasy com Disney’. Ai a pessoa pergunta: Como assim? É simples, Kingdom Hearts é um RPG que pega emprestado muita inspiração de Final Fantasy, mas sabe ser original já no primeiro jogo e aprimora tudo no segundo. Já a Disney está muito mais envolvida no roteiro inicial, através de seus personagens clássicos e nos mundos que visitamos. Há personagens e enredos de FF também, mas, num geral, é a Disney que domina os jogos.

Já no primeiro jogo visitamos diretamente os clássicos filmes de Hércules (1997), Pinóquio (1940), 101 Dálmatas (1961), A Pequena Sereia (1989) entre outros. Apesar de revisitar alguns lugares, no segundo game continuamos a explorar outros clássicos da Disney e o mesmo ocorre no terceiro jogo, que explora franquias mais recentes. Mas, isso aqui também é uma análise e para analisarmos corretamente – ignorando um pouco a nostalgia, vamos em um jogo de cada vez.

Kingdom Hearts 1

No primeiro jogo iniciamos nossa aventura a partir de uma ilha onde estão Sora, Riku e Kairi. Desde o início do game é bastante mencionado o ar de aventura, de conhecimento através da curiosidade do trio sobre o que há fora de sua ilha. A partir dai começa uma grande quantidade de eventos que só entendemos lá pro final, ainda que nem tudo devido a falta obvia de conclusão, já que há muitos outros jogos.

O roteiro do jogo é bom, nada lá muito primoroso, mas é o mais consistente de todos os games da franquia. Quando aborda os mundos Disney é que o jogo pode ficar um pouco enrolado em roteiro principalmente devido a não dar para pular as cutscenes – no original. Isso ocorre porque o jogo aborda a mesma história dos filmes com leves interferências de Sora nos heróis, assim como dos Heartless nos vilões.

Porém, o principal fica para a jogabilidade e gráficos. O jogo recria com muita eficiência os mundos dos filmes da Disney, assim como reinventa diversos personagens de Final Fantasy que ainda não possuíam tantos polígonos quando apareceram em seus jogos originais. Cloud ganha um tom bem mais sério em sua aparência, talvez para diferenciá-lo um pouco de Sora, que parece bastante com o protagonista de FFVII.

RPG? Nem tanto

Na gameplay, ainda que se fale bastante em RPG, Kingdom Hearts se aproxima muito mais de um Hack’n Slash com elementos de RPG do que o inverso. O jogo abandona qualquer confronto por turnos e foca em batalhas frenéticas e de porradaria descontrolada, rápida e de pouco estratégia. A estratégia, como é de costume, fica para os chefes, onde há uma boa gama de mecânicas para criar diferentes enfrentamentos. O jogo em si possui diversas mecânicas, que evitam que sua longa gameplay – que passa facilmente de 40 horas numa primeira tentativa de fazer tudo que tem no game – fique repetitiva ou cansativa. Claro que há problemas, como uma câmera bastante problemática e que prejudica as batalhas, além de um sistema de Target de inimigos bem confuso.

Ainda que tenha seus problemas, no entanto, Kingdom Hearts 1 é uma ótima introdução e que alia bem o RPG com o Hack’n Slash – algo comum hoje em dia em franquias como God of War, Darksiders e DMC. Com um enredo acolhedor, divertido – apesar dos diálogos bem ruins – e capaz de trabalhar bem a mistura de franquias já existentes com sua própria história, o jogo consegue te fisgar de todos os lados.

Kingdom Hearts 2 – (Quase) tudo melhor

Partindo agora para o segundo jogo numerado – não o segundo da franquia, já que há outros -, temos Kingdom Hearts 2. O importante a se destacar é que os demais jogos tentam inovar em sistema de gameplay, enquanto os numerados seguem um padrão. Isso é relevante, pois quem só jogou a trilogia numerada, sente a sensação de que não há nada entre elas, pelo menos na jogabilidade. Já na história, ai sim fica um gigantesco buraco a ser preenchido pelos outros jogos.

Para começar, devo fazer o maior elogio que uma sequência pode receber: saber o que melhorar. É comum que desenvolvedores mudem demais, criando sistemas novos e tirando coisas que eram boas no jogo original. Kingdom Hearts, no entanto, soube exatamente onde mexer e onde não tocar um dedo. O primeiro jogo não chegava a ficar enjoativo, porém, se não houvessem novidades em sua sequência, facilmente ficaria cansativo. Todavia, Kingdom Hearts 2 trás uma gama de novidades e aperfeiçoamentos.

Tudo que tem no primeiro game, tem no segundo, porém melhor. Os combos foram melhorados, o sistema de forja foi melhorado, a movimentação dos personagens, inteligência artificial. Absolutamente tudo! Com isso, fica fácil perceber que o segundo jogo é melhor que o primeiro. Isso no entanto, está longe de ser um demérito do original, visto que ele também inovava da sua maneira. Não bastasse a nítida evolução nos sistemas já existentes, o jogo introduziu transformações que dão uma variedade interessante, com cada uma tendo uma função única e sua própria maneira de evoluir.

Mais RPG, menos RPG

Pegando o gancho da menção que fiz no primeiro jogo, aqui o gênero evolui em ser um RPG, porém, as transformações e armas entregam um Hack’n Slash da melhor qualidade. Incrível como o jogo soube evoluir nas duas frentes de maneira satisfatória. Juntando tudo que o original já possuia de mecânicas e mais as inovações, Kingdom Hearts 2 trás uma gama de possibilidades que tornam – caso você saiba aproveitar tudo que o jogo tem a oferecer – uma gameplay impossível de enjoar.

A questão gráfica também evolui consideravelmente, principalmente nos personagens em tempo real. No primeiro jogo havia uma desproporção de tamanhos e péssimas expressões. Já aqui, a coisa melhora bastante, o que dá mais vida aos personagens. Os cenários, no entanto, já eram bonitos no primeiro game e aqueles que se repetem demonstram pouca evolução – talvez tenham sido reaproveitados. Todavia, os cenários novos são belíssimos, provavelmente sugando tudo que o PS2 tem a oferecer. Inclusive, há cenários muito maiores que o primeiro, necessitando menos de telas de carregamento. Um destaque ao mundo do Rei Leão, um deleite aos olhos.

Na câmera, notamos a maior melhoria do jogo. Ainda há pontos cegos e problemáticos, mas longe de atrapalhar a gameplay como ocorria no primeiro. Nas cutscenes, no entanto, temos um bug em que os personagens deveriam vir de fora do enquadramento, porém, não é difícil vê-los ‘aparecer’ já na tela, o que os faz parecer personagens de Dragon Ball teleportando de repente.

Já na história

Diferentemente do que muitos dizem, o enredo de Kingdom Hearts 1 não é lá super complicado. Na época do PS2 talvez, mas hoje é fácil encontrar ROMs em português. O que torna tudo mais difícil são as ramificações, ou seja, os não numerados. Com lançamentos em consoles diferentes dos numerados, estes outros jogos não só complementam a história, mas trazem novos elementos e os desenvolvem, criando buracos entre os numerados. Estes buracos não podem ser preenchidos facilmente, visto a complexidade que a história ganha com as ramificações.

O segundo jogo trás leves lembranças do primeiro ao longo dos sonhos de Roxas, logo no início. Porém, para o jogador mais desavisado, não era o primeiro jogo que deveria ser relembrado e sim os outros, de outros consoles, de maneira a preencher esta lacuna. Hoje não é mais um problema, devido ao lançamento de coleções que trazem todos os jogos, o que permite uma melhor absorção do conteúdo. Mas, como o jogo é originalmente de PS2 e foi planejado para isso, é um defeito do mesmo, pelo menos em seu enredo, exigir que o jogador tenha jogado outro jogo de outro console para absorver seu conteúdo.

Em Conclusão

Para encerrar, vale a menção de que Kingdom Hearts 1 está longe de ser um jogo ruim, muito pelo contrário, quando o terminei, fiquei assustado ao perceber que não tinha o jogado antes. Toda essa qualidade aumenta e muito os méritos da sua sequência, que consegue a façanha de ser melhor em todos os aspectos. Há poucos jogos que funcionam tão bem como sequência quanto estes dois.

Para quem nunca experimentou, há versões para o PS2, PS3 e PS4 – inclusives coletâneas. Uma dica – quase obrigatória: jogue na ordem, não cometa o terrível erro de ir direto pro segundo, pois isso prejudicará sua experiência no original, já que sentirá que está ‘faltando’ algo quando jogá-lo.

Kingdom Hearts é uma franquia pouco falada, apesar de seu sucesso internacional. Todavia, no quesito PS2 em que há tantos clássicos e jogos históricos, garanto que os dois games não deixam nada a desejar para seus companheiros de geração. Inclusive, se você se diz fã do maior console da história, é obrigado a experimentar mais uma das franquias que nasceram e se popularizaram nele.

Afinal, Pateta, Donald, Mickey, Cloud e Sephirot no mesmo jogo, não é uma coisa que se vê todo dia!

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