Roseira, Medalha, Engenho e Outras Histórias – Resenha

Sobre passado, legado e pertencimento

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Roseira, Medalha, Engenho e Outras Histórias – Resenha da HQ de Jefferson Costa

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Ano Publicação Original: 2019
Título Original: Roseira, Medalha, Engenho e Outras Histórias
Roteiro e Arte: Jefferson Costa
Editora: Pipoca & Nanquim

Roseira, Medalha, Engenho e Outras Histórias é uma das primeiras apostas 100% nacionais da ainda jovem editora Pipoca & Nanquim, fundada pelos donos do canal homônimo de YouTube que, há dez anos, é um dos mais relevantes sobre o tema.

Quem assina a HQ é o talentoso Jefferson Costa, responsável pelos traços das premiadas obras A Tempestade, La Danserina e, especialmente, Jeremias: Pele –  das Graphics MSP – todas ganhadoras do Troféu HQMix, nosso Oscar dos quadrinhos. Esta, entretanto, é a primeira em que assina solo roteiro e arte.

Em Roseira, Medalha, Engenho e Outras Histórias somos apresentados, paralelamente, às histórias de Vaninha e Marinho, bem como suas respectivas famílias entre as décadas de 50, 60 e 70. A primeira se passa em Várzea da Roça, no interior da Bahia; a segunda, em Cajuí e Engenho Alegre, em Pernambuco.

Por meio de flashes entre momentos distintos da vida dos dois personagens centrais, adentramos o universo de uma vida dura e simples no sertão nordestino, mas também recheada de idas e vindas – lembranças boas, ruins, risadas, lágrimas e, sobretudo, como a vida reserva surpresas e escreve certo por linhas tortas.

Ancestralidade

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Roseira, Medalha, Engenho e Outras Histórias gira em torno da ancestralidade. A HQ é baseada nos antepassados do autor e suas respectivas histórias (com o complemento de histórias que ouviu toda vida). Mais do que um quadrinho, a obra é um verdadeiro álbum de família que celebra o legado dos antepassados e a importância de não se apagar a história, mas sim levá-la adiante.

Em um país como o nosso, que, mesmo que de forma às vezes camuflada, constantemente enterra suas raízes indígenas, africanas, nordestinas em detrimento de uma cultura eurocentralizada (ou mesmo estadunidense), a HQ traz uma importante mensagem sobre como a história de nossos pais, avós e bisavós é tão rica em todos os seus detalhes e é, sobretudo, a história do nosso país (ou ao menos uma parte muito considerável desta).

Como filho de mãe nordestina, me identifiquei com diversas histórias, semelhantes às contadas por minha mãe sobre sua vida no interior da Paraíba, desde os curiosos apelidos de conhecidos da vizinhança aos ambientes descritos nas páginas do quadrinho, além dos ritos muito próprios da região e período, como os velórios recheados de velas e familiares e conhecidos por toda casa.

Linguagem e ambientação

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Um ponto muito interessante da HQ é a linguagem aplicada aos personagens, que conserva o modo de fala típico das respectivas regiões e nomenclaturas também, o que dá um caráter ainda mais verossímil à obra (e torna a leitura muito gostosa).

Aliado a isso, o traço de Jefferson, somado a uma colorização muito competente, ilustra com grande riqueza de detalhes e formas o sertão nordestino, desde as casas de pau a pique, a mata e às vestes dos personagens, levando em conta também o período observado.

A trilha sonora de Roseira, Medalha, Engenho

Uma adição que o próprio Jefferson admite em seu posfácio é a presença de uma trilha sonora que embala algumas transições da história. Estas passagens trazem trechos de letras de artistas como Mestre Ambrósio, Tom Zé e Cordel do Fogo Encantado – trechos estes que descrevem com sutileza o sentimento presente nas angústias e outras vivências dos personagens. É uma ótima experiência acompanhar a leitura junto às canções.

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Roseira, Medalha, Engenho e Outras Histórias é uma leitura envolvente e emocionante; uma história para quem ama histórias. Um recorte  preciso de um Brasil poucas vezes lembrado; exibido; contado. E um trabalho de incrível qualidade editorial do Pipoca & Nanquim.

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