Série de Resident Evil (Netflix) | Análise

Resident Evil é a principal franquia de games da desenvolvedora japonesa Capcom. Desde 1996, com o lançamento do primeiro game para o clássico PS1, a franquia recebeu diversos produtos. Sequências vieram com RE2, RE3 e RE4, que venceu o prêmio de jogo do ano sendo para muitos o melhor da franquia. Todo esse sucesso rendeu uma franquia de filmes pelas mãos da Constantin Film. Protagonizada por Milla Jovovich, a franquia de filmes nunca desceu na garganta dos fãs, mas rendeu muito dinheiro. Ano passado, porém, a série recebeu um reboot nos cinemas, com Bem-Vindo a Raccon City. A Netflix, então, decidiu fazer sua própria tentativa com uma série de Resident Evil em animação que foi bem ruim, mas agora em live action surge uma nova versão.

A série como Série

Vou entrar na questão da adaptação mais a frente do texto. Neste momento, vou analisar a série como se fosse algo totalmente novo e não uma adaptação. A série conta a história de Billie (Siena Agudong) e Jade Wesker (Tamara Smart), filhas de Albert Wesker (Lance Riddick) que chegam para viver na nova Raccon City em 2022. Ao mesmo tempo, temos um ponto de vista que se passa no futuro, ainda acompanhando Jade (Ella Balinska), mas em 2036. Neste futuro, o mundo foi tomado pelo zumbis – aqui chamados de zero – e vive uma espécie de distopia.


Esta estrutura que intercala entre passado/futuro (ou presente/futuro, tanto faz) não é nova. Normalmente, ela possui a intenção de gerar curiosidade em relação ao passado baseado no que mostra no futuro. Há o desafio de manter o interesse do espectador sobre o que ocorre no passado devido a ele já saber em parte no que aquilo tudo vai resultar. Neste ponto, a série de Resident Evil manda bem, trabalhando com sabedoria as informações de maneira a manter o presente relevante, enquanto mostra o futuro. O problema, no entanto, está na montagem, com transições excessivas. Isso vai melhorando com o passar dos episódios, mas nos dois primeiros, especialmente, fica cansativo a quantidade de trocas entre presente/futuro que ocorre.

futuro e presente

O plot do futuro, num geral, é bastante segurado para evitar mostrar demais. Esta parte da história é usada para gerar a curiosidade que mencionei antes, mas também para alimentar a necessidade de vermos zumbi e ação em tela. Quando a coisa acalma no futuro, o passado fica um pouco mais agitado. Esta troca é calculada e ajuda a série a não ficar cansativa ou arrastada. Senti falta, porém, de alguma característica especifica do futuro para ajudar a identificar a mudança de ponto de vista. É comum que a paleta de cores seja mudada para facilitar a identificação das transições, mas aqui nada ocorre. Num geral, identificamos pelos personagens, o que gera cenas que precisamos de um tempo para identificar em que tempo ela se passa.

Já no presente/passado, temos a construção geral da história. Aqui, temos uma boa introdução dos personagens principais da série, assim como suas abordagens logo no primeiro episódio. Porém, a história demora um pouco pra engatar do terceiro episódio em diante, sendo, neste caso, prejudicada pela intercalação com o futuro, que devido a ação rouba toda a atenção. Fico com a impressão de que a cidade e o contexto em que as gêmeas se encontram foram mal aproveitados. O drama, num geral, funciona, e os mistérios e revelações são bem encaixados, pelo menos até o clímax.

Veredito da Série de Resident Evil

Apesar de não gerar conteúdo suficiente pra oito episódios de uma hora, a série de Resident Evil da Netflix funciona bem na maioria do tempo. A escolha de dois pontos de vista temporais diferentes funciona para que tenhamos um equilíbrio entre ação e mistério/drama. O grande problema é que a série gasta muito tempo segurando seus mistérios com alguns dramas e soluções rápidas em excesso. Tudo isso gera um clímax bastante sem sal e cheio de decisões problemáticas por parte dos personagens/roteiro.

O futuro, apesar de conversar bem com o presente/passado, não foge muito ao clichê de mundos distópicos. Temos uma personagem sobrevivendo em busca de encontrar um lugar específico. Grupos de sobreviventes diferentes, os humanos maus e os bons, etc. Do ponto de vista da Umbrella, é bastante parecido com dinâmica encontrada nos filmes de Paul Anderson, com Jade cumprindo um papel muito parecido com o de Alice. A decisão da separação, portanto, foi acertada, mas utilizada de forma protocolar, sem fugir muito ao esperado.

É uma série clichê, que tem bons elementos, mas inchada com dramas que não funcionam tão bem. Bem equilibrada entre ação e suspense, com uma boa utilização de sua estrutura dupla.

A Série de Resident Evil como adaptação

Há uma discussão bastante problemática e que, por mais que eu pense sobre, não consigo chegar a uma conclusão definitiva. O que tornar uma adaptação boa? Fidelidade? Qual deve ser o objetivo ao adaptar algo? The Boys, a série da Amazon, possui uma adaptação muito acima do material fonte. Resident Evil, apesar de uma legião de fãs – a qual me incluo -, nunca teve um roteiro incrível. Sua jogabilidade, aliada com a atmosfera dos games, o tornaram o sucesso que é hoje. De resto, é uma história bem comum, ainda que tenha construído um universo bem característico, principalmente em cima da Umbrella, maior simbolo dos jogos.

Deste ponto de vista, não seria interessante que uma adaptação tentasse tornar o roteiro original em algo melhor? Parecido com o que foi feito com The Boys? A trilogia original do PS1, passada em Raccon City, possui material suficiente para gerar uma série. Algumas adaptações aqui e ali, adições, uma linguagem própria e pronto, teríamos potencial para uma grande série de suspense e terror. Todavia, o que vemos na série de Resident Evil da Netflix não é uma adaptação e sim uma fanfic de milhões de dólares.

Adaptação x Fanfic

Uma fanfic é uma história criada em cima de um universo pré-estabelecido. Normalmente, é utilizada por adolescentes que criam romances impossíveis de acontecer no universo principal. Não vou entrar no mérito deste tipo de história, mas a série da Netflix é isso, uma utilização de um universo já existente para criar uma história própria. Isso não é uma coisa ruim, pois a série foge do problema do filme do ano passado, por exemplo, que tentava criar algo próprio ao mesmo tempo que adaptava os três primeiros jogos. Isso resultou em um filme corrido e instável, que não funcionou nem para o público novo e nem para o antigo.

A série, todavia, foge desta tentativa. Temos diversas referências aos jogos, porém, num geral, a história foca bastante em si mesma. A exceção, claro, é Albert Wesker, que ainda consegue ser utilizado de forma original pela série. Tal proposta abre margens para a utilização de elementos dos jogos, ao mesmo tempo em que liberta os roteiristas de ter que seguir uma história já existente, permitindo uma originalidade. A estrutura de seriado, ao invés de filme, também ajuda nesta questão. De certa for,a a série tem mais de Resident Evil do que os jogos mais recentes, por exemplo,e fosse um jogo ao invés de uma série, provavelmente não geraria tanto hate gratuito de pessoas que sequer se deram ao trabalho de entender a proposta do roteiro.

Problemas também

Os filmes de Anderson, por um lado, não eram eficientes em ser originais em adaptar os jogos, mas eram fieis na caracterização. Desde Jill no segundo filme, até o estranho Leon em um dos últimos. A franquia do cinema utilizava os personagens mal, mas era fiel na caracterização. Bem-Vindo a Raccoon City tentou ser fiel em parte de seu roteiro, mas por algum motivo, não fez esforço algum na caracterização de certos personagens. Eu não ligo muito pra isso, mas as vezes soa como teimosia, entende? Parece que o diretor tem uma necessidade de desafiar os fãs e entregar uma caracterização diferenciada só pra inventar.

Como a série de Resident Evil se propôs a utilizar um universo já estabelecido e trabalhar em cima dele, era esperado manter a caracterização de seu maior expoente nesta proposta, que é Wesker. Fosse uma história nova, eu não ligaria se Wesker fosse azul, mas na proposta atual, não faz sentido a mudança de aparência do personagem. Faltou sensibilidade dos produtores, faltou alguém que realmente conheça Resident Evil pra falar no ouvido dos produtores “Wesker é o maior vilão da franquia, é um símbolo, mudar sua aparência vai resultar na fúria dos fãs”. Além disso, em dado momento a série parece ter ficado com medo da falta de embasamento com os jogos originais e forçou muito com o video de Lisa Trevor, o que, do ponto de vista narrativo, fugiu um pouco do plot principal e gerou perguntas que a série não pretende responder para os não fãs da franquia, o que obviamente é um problema.

Veredito da Série como Adaptação

Apesar de utilizar somente Wesker e a Umbrella como pano de fundo principal, a série de Resident Evil da Netflix funcionaria perfeitamente como uma história extra, uma fanfic. O retorno do grande vilão da série era esperado e os produtores brincaram com fogo ao decidir utilizá-lo. Funciona como um adendo, um spin-off do universo dos games e também como série própria. A escolha de ser este spin-off ao invés de uma adaptação seria perfeita, mas faltou coragem para levar isso mais a sério e respeitar com exatidão o material original quando a série se propôs a utilizá-lo.

Fica como lamentação mais um desperdício de oportunidade de vermos a atmosfera da trilogia original sendo levada para as telas. Há uma necessidade de tornar todo material de Resident Evil em algo grandioso, quando o isolamento e a sobrevivência ao horror são suas maiores características. Há claras referências a Resident Evil 4 com o Dr. Salvador e a seita do mal em determinado ponto, mas outro elemento mal aproveitado. Deve demorar muito ainda, mas um dia creio que veremos os personagens principais da série perdidos em uma mansão tentando escapar enquanto sobrevivem aos zumbis. Deste ponto, os dois primeiros filmes de Paul Anderson são a melhor adaptação de Resident Evil que temos até hoje.

Enquanto isso, é melhor ficar com os games e os filmes em CGI, por questão de sanidade mesmo.

ANÁLISE CRÍTICA - NOTA
Nota da Série
7
Quem quiser saber quem sou, olha para o céu azul...Amante de infinitas coisas, desde animes, games, filmes, séries, música, futebol, literatura...Toda e qualquer uma dessas artes, mas, principalmente, a escrita, que torna minhas palavras imortais igual ao meu tricolor!
serie-de-resident-evil-netflix-analise Resident Evil é a principal franquia de games da desenvolvedora japonesa Capcom. Desde 1996, com o lançamento do primeiro game para o clássico PS1, a franquia recebeu diversos produtos. Sequências vieram com RE2, RE3 e RE4, que venceu o prêmio de jogo do ano...

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