Manifesto contra o Orientalismo da Associação Brasileira dos Coreanos

Três fontes da comunidade coreana explicam por qual motivo expressões culturais da Ásia não podem ser generalizadas

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Manifesto contra o Orientalismo, com a indignação de Augusto Kwon, presidente da Associação Brasileira dos Coreanos / Imagem de Big_Heart por Pixabay

Manifesto contra o Orientalismo da Associação Brasileira dos Coreanos

A decisão da Associação Brasileira de Letras de incluir a palavra “dorama” no dicionário da língua portuguesa, como uma obra audiovisual de ficção em formato de série, produzida no leste e sudeste da Ásia, foi recebida com descontentamento pela Associação Brasileira dos Coreanos, que tem sede em São Paulo e representa a comunidade coreana no país. Hoje, recebemos por e-mail o Manifesto contra o Orientalismo, com a indignação de Augusto Kwon, presidente da Associação Brasileira dos Coreanos.

A Associação Brasileira dos Coreanos expressou sua insatisfação com a decisão, considerando-a preconceituosa devido à generalização das produções do leste-asiático. Eles argumentam que cada produção tem suas próprias características e um público específico, e generalizar essas produções é equivocado, pois isso não leva em consideração suas peculiaridades. Fizeram uma analogia, comparando essa generalização com a ideia de que toda comida nordestina seja comida baiana, enfatizando a importância de reconhecer a diversidade cultural.

Eles também destacaram os esforços da Coreia do Sul em resgatar sua cultura milenar, que sofreu uma tentativa de apagamento durante a colonização japonesa no início do século 20. Esses esforços se refletem em várias formas de expressões culturais, como o K-Pop, séries, gastronomia, entre outros.

Para contextualizar a decisão no cenário mundial, a Associação mencionou que o dicionário Oxford já havia incluído a palavra “K-Drama” em vez de “dorama”, e que em nenhum outro país as séries asiáticas são generalizadas. Eles também observaram que não existe um termo equivalente para séries europeias, como “Eurodramas”.

A Associação dos Coreanos questiona por que o Brasil deveria adotar uma abordagem contrária à de outros países, que reconhecem a importância de não generalizar expressões culturais. Eles expressaram sua esperança de que a Associação Brasileira de Letras reveja sua decisão à luz da compreensão sociocultural do assunto em questão.

’Dorama’ é uma palavra niponisada de um termo em inglês, transcrita dessa maneira por força das características fonéticas do silabário japonês, o que não é o caso da escrita coreana, a qual permite transcrevê-la como ‘drama’, i.e., igual ao vocábulo em inglês. Ou seja, quando chamamos os seriados coreanos de K-drama, estamos usando o termo em inglês já transcrito para o coreano, e não o termo original do inglês, como pode parecer. Da mesma forma, existe o termo P-drama para designar as telenovelas filipinas. Por isso, generalizar as produções do sudeste asiático como ‘doramas’ seria como chamar todos os asiáticos de ‘japa’, contrariando a tendência atual de dar voz às minorias, se é que podemos chamar os dramas coreanos de minoria no quadro atual das produções de streaming no mundo.

Dra. Yun Jung Im, professora e coordenadora da graduação em Letras – Coreano da Universidade de São Paulo (USP)

O uso no Brasil do termo ‘dorama’, em japonês, generaliza e apaga indústrias midiáticas asiáticas. Esse apagamento fortalece estereótipos e reforça, assim, o orientalismo. O drama de TV é um formato televisivo realizado em diferentes indústrias da mídia no Leste e Sudeste Asiáticos. Chamar um drama sul-coreano, ou K-drama, de ‘dorama’ é mais uma forma de estereotipar um consumo, além de ativar estruturas históricas de raízes imperialistas. ‘Dorama’ é um neologismo que ainda pode ser combatido, até porque todo este debate não é um preciosismo linguístico, mas sim uma questão séria de apagamento midiático de diversas perspectivas culturais e de profunda carga imperialista de um passado extremamente recente. Vamos respeitar as culturas, especialmente quando somos tão fãs de suas produções.

Dra. Daniela Mazur, pesquisadora do MidiÁsia, grupo de pesquisa da Universidade Federal Fluminense (UFF)

Fonte: Correspondência por e-mail

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Caroline Ishida Date
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