Coringa (Joker, 2019) – Resenha

Coringa é uma obra única. O longa conta com uma atuação impecável e assustadora de Joaquin Phoenix. O filme beira uma poesia distorcida em meio ao caos.

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Há mais de uma década atrás, chegava aos cinemas um filme que mudaria o status quo do gênero de super-heróis. O filme contava com um ar mais sombrio e realista, e apresentou uma releitura de um dos maiores vilões dos quadrinhos. Batman – O Cavaleiro das Trevas, de Christopher Nolan é um grande marco na história da sétima arte. A atuação de Heath Ledger, é lembrada até hoje como uma das mais icônicas, que imortalizou o ator e o seu Coringa no imaginário popular. Depois de tanto tempo, tivemos o “Coringa” de Jared Leto em Esquadrão Suicida. Mas prefiro não me alongar muito nesse assunto por motivos óbvios. Eis que em 2019, chega o primeiro filme solo do personagem, protagonizado por Joaquin Phoenix e que conta com direção de Todd Phillips.  E pode-se dizer que o filme foi uma grande surpresa. E que filme meus amigos.

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Logo na primeira sequência do longa, podemos notar que o tom dele é bem diferente de um filme de super-herói. Principalmente os da Marvel, que por mais que façam um estrondoso sucesso (e merecidamente) usam e abusam da mesma fórmula. Coringa começa com tudo em um início dolorido e angustiante. De tal maneira que podemos já mais ou menos sentir o quanto ele é diferente dos filmes de “herói”. E apesar de toda essa diferença inicial, ao término dele você sente que viu sim um filme do gênero, porém com uma abordagem mais intimista e adulta. A sensação que ficamos é que estamos lendo um quadrinho do selo Vertigo ou o mais recente DC Black Label, ambos voltados para um público mais adulto.

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Arthur Fleck que é interpretado por Phoenix é um personagem complexo e cheio de nuances. A sua origem até se tornar o Coringa é muito mais do que um dia ruim (como na HQ Piada Mortal) ou apenas cair em um tanque de produtos químicos. As “motivações” de nosso Arthur são muito mais profundas e intensas. E o pior de tudo: são até críveis, já que a abordagem do filme vai mais para o lado mais realístico. A vida de Arthur é complicada, difícil e suja. Ele já tem diversos problemas:  não tem uma boa saúde, pelo contrário é bem debilitado fisicamente e mentalmente. Problemas com empregos e dificuldade em viver em sociedade. Gotham City é uma cidade imunda, que ajuda a afundar ainda mais os mais desafortunados. Coringa mostra de uma maneira bem crua diversas situações de desigualdade social e como uma cidade abandonada ao relento pode ser o fato gerador de diversos problemas. Alguns menores e outros de proporções catastróficas.

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Coringa é um filme muito intimista. Muito mesmo. Sob o olhar perturbado de Arthur, vamos conhecendo sua rotina, seus problemas e seus sonhos. E como estes parecem cada vez mais distantes nessa Gotham. Joaquin Phoenix entrega uma atuação monstruosa (por favor, já entreguem o Oscar à esse homem). É impressionante o que ele faz em tela. Dá pra perceber o quanto ele se entregou  ao papel e deu vida a um personagem complicadíssimo de se fazer. Aliado ao roteiro intenso que foi escrito por Todd Phillips e Scott Silver, Coringa resulta em uma obra como poucas. Não estamos falando de um filme onde temos um lunático que dá risada o tempo todo e saí por aí soltando o gás do riso e resolver assaltar bancos e dominar o mundo. O Coringa de Phoenix é muito mais profundo. É um verdadeiro estudo sobre a psique do vilão e assim mostrar o quão doente o mundo pode ser.

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Quanto a parte técnica o filme também dá um verdadeiro show. A direção de Phillips aborda muito bem toda a loucura empregada por Phoenix, dando vida a insanidade de Arthur Fleck. As tomadas, os ângulos e a fotografia são belíssimas. Os closes nos olhos e nos dentes de Arthur em meio a suas risadas eram perturbadoras. A trilha sonora que também é um show a parte, deixando o filme em uma sintonia perfeita e ao mesmo tempo bem desconfortante, devido as situações colocadas em tela. Há algumas sacadas durante o filme que são simplesmente geniais, e que fazem referências ao legado do personagem. Aliás, esse é um ponto importante. Apesar de ser um personagem de quadrinhos, o filme não se prende a nenhuma origem já abordada. O filme toma seu próprio rumo e conta a sua própria história, sem ter que se prender a alguma cronologia ou a algum universo compartilhado. Ele funciona como uma graphic novel fechada que se sustenta por si só. E isso é um grande acerto da Warner / DC. Afinal, tudo sobre o Coringa é incerto!

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Mas fica um aviso quanto ao filme: ele não é para todo mundo. Dizemos isso por conta de Coringa ser um filme bem pesado. E quando falamos isso não é apenas pela violência gráfica (que é intensa quando ocorre e de maneira crua) mas também por todo o contexto que envolve a vida de Arthur. Pessoas mais frágeis ou crianças, não é aconselhável verem esse filme. Ele toca em algumas feridas que causam impacto em quem assiste. Devido a sua abordagem mais realista e intensa, vivenciamos algumas situações de injustiça, abandono, violência, desigualdade e maldade. Coringa não é um filme fácil. Não por ser complexo ou violento demais, mas por toda a soma dos fatos, e assim nos entrega um filme de certa forma indigesto. Que é perfeito em mostrar esse mundo distorcido.

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Coringa é um filme realmente difícil. Foi até meio complicado escrever sobre ele, pois mesmo após alguns dias, ele ainda reverbera dentro deste que vós escreve, tamanha foi a experiência que ele proporcionou. A cada reflexão ele pode te apontar para uma direção. Aliás, essa é uma das qualidades do filme, já que Coringa além de ser uma baita obra, deixa margens para diversas interpretações e teorias. É de certo um daqueles filmes que já devem ter diversos tópicos em fóruns de discussão. Sem dúvida é uma daquelas obras que merecem ser revisitadas de tempos em tempos. Coringa impacta por mostrar mesmo que de forma fictícia, como o papel do governo e da mídia tem total poder sobre as pessoas. Isso tanto para o bem quanto para o mal. E o que isso pode resultar.

Além de ser um filmaço que vai muito além telonas, ele ainda pode ser o início de uma nova era desses filmes mais “sombrios” / adultos baseados em quadrinhos.. Afinal, quem imaginava anos atrás que um filme solo do vilão poderia dar tão certo? Isso abre um leque enorme de possibilidades. Imagem um filme de Lex Lurhor nessa pegada? Ou um novo Constantine em uma pegada mais nas HQ’s de Garth Ennis. Tudo vira possibilidade depois de Coringa. Talvez esse seja um caminho que da DC / Warner possam explorar mais daqui para frente.

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Em suma, Coringa é um filme como poucos. Não me esquecerei da sensação que ele me proporcionou na sala de cinema. Fiquei maravilhado e ao mesmo tempo assustado. Uma sensação incômoda no peito e na garganta. Parecia uma espécie de poesia distorcida em meio ao caos. Toda a dor e loucura jorrando aos montes da tela, em meio a risadas que não transmitiam felicidade alguma. Risadas que eram um alerta, um pedido de ajuda. Risadas de alguém que queria apenas existir.

Para outras resenhas de filmes aqui do Meta Galáxia é só clicar aqui! 

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4 COMENTÁRIOS

  1. Muito bom, resumiu bem o que eu também observei sobre o filme, o mais marcante de fato são os sentimentos provocados com a interpretação impecável de Joaquim Phoenix, forte candidato ao Oscar!

    • Isso mesmo Cassia. O filme consegue trazer diversas discussões sobre a nossa sociedade. É um filme que ainda reverbera dentro de mim, mesmo após tantos dias. Joaquin Phoenix merece muito esse Oscar, o que ele fez ali foi memorável.

      E obrigado pelo comentário!

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