“Túmulo dos Vagalumes” (1988) – Análise

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Cena de Abertura de "Túmulo dos Vagalumes"

Certas temáticas foram revisitadas infinitas vezes. A segunda Guerra Mundial gerou inúmeros filmes e gera até hoje, muito mais do que a primeira. Não é comum, no entanto, animações tocaram no assunto de maneira explicita, já que é comum estas tratarem assuntos delicados de forma metafórica. Onde o filme pode ser assistido e  interpretado de uma maneira por uma criança e de outra por um adulto. Em Túmulo dos Vagalumes, do estúdio Ghibli, o diretor Isao Takahata resolveu abordar um assunto de forma delicada, mas com uma única metáfora além da realidade.

Ficha Técnica
Nome: Túmulo dos Vagalumes (火垂るの墓)Diretor: Isao Takahata
Ano: 1988Duração: 1h28min
Gênero: Animação; Guerra; Drama.Estúdio: Ghibli

Sinopse: Uma trágica história sobre dois irmãos – Setsuko e Seita – que vivem no Japão durante a época da guerra que, após tornarem-se órfãos por causa do conflito (sua mãe morreu e seu pai está desaparecido), vão parar na casa de parentes. As coisas pioram quando acabam tendo que ir viver em um abrigo no meio do mato. Quando Setsuko, a irmãzinha caçula, adoece gravemente, seu irmão deve se virar para conseguir ajuda para a menina, mas os tempos são difíceis e mesmo um pouco de comida pode ser difícil encontrar.


Em primeiro lugar, a escolha é por acompanhar a história de civis, costumeiramente tratados como meros figurantes neste tipo de filme. Com isso, a guerra em si se torna um elemento secundário, ainda que extremamente presente na trama. O foco é em mostrar Seita e Setsuko e sua guerra particular pela sobrevivência.

O que os olhos não veem, o coração não sente (?)

Resquícios da guerra

É obvio que criamos empatia pelos protagonistas, mas o filme em momento algum deixa de mostrar que, independente da situação dos dois, há todo um sofrimento em seu redor. Por onde andam, os irmãos são cercados por dor e sofrimento em cenários de fundo estáticos, como se os dois andassem sobre quadros que representam imagens da guerra.

Este elemento é importante para entendermos que apesar do filme mostrar os dois irmãos e sua jornada, há todo um contexto onde muitos outros sofrem, muitos outros morrem. Seita rouba para comer, mas o alimento é tão pouco, que nem mesmo o dinheiro é capaz de comprá-lo. Assim, cada fruta roubada pelo protagonista, é capaz de ter como consequência o sofrimento de outro alguém, igualmente como as demais coisas roubadas durante os bombardeios. Passamos a entender o comportamento do protagonista, ao mesmo tempo em que julgamos o daqueles ao seu redor. Se estivemos assistindo a história do ponto de vista destes que maltratam os irmãos, talvez a empatia seria por eles.

No fim, não há lado certo ou errado quando percebemos o quanto todos estão ali para sobreviver e um belo exemplo disso é a cena inicial, onde acompanhamos o protagonista morto no chão, mas vários outros igualmente mortos ao seu redor. Provavelmente, cada um daqueles possuíam sua própria história. É o que a guerra trás como consequência, histórias, algumas de superação e heroísmo, como muito vimos no cinema, mas em sua maioria de sofrimento.

Histórias, nossas histórias…

A morte de Seita na abertura de Túmulo dos Vagalumes

A cena inicial de Túmulo dos Vagalumes ganha um novo simbolismo quando você o termina de assistir, não só por sentir a morte de Seita de maneira diferente, mas por ver a latinha carregada por Setsuko durante todo filme ser jogada para longe. Há uma história por trás do objeto, que é descartado como mero lixo, não diferenciando em nada o lixo do humano, do vivo, igualmente descartável, sem que ninguém saiba quem foi ou o que viveu.

A grande pergunta do filme, feita por Setsuko ao enterrar os vagalumes, permanece sem resposta até hoje. A Segunda Guerra, assim como a primeira, deixou um rastro de destruição enorme e cada dia outras novas permanecem deixando. Uma infinidade de covas, não só daqueles que morrem em combate, mas daqueles que muitas vezes sequer sabem o motivo de ter que correr. Setsuko era uma menina alegre, que nasceu e viveu na guerra e, assim como os vagalumes que enterrou, morreu sem ter vivido. Seita era mais um jovem que foi obrigado a tornar-se adulto cedo e é incrível como, 75 anos depois, muitos podem se identificar com o personagem, principalmente pessoas que vivem em países pobres.

A arte imita a vida

O literal Túmulo dos Vagalumes

Em suma, é mais do que um filme sobre guerra, é um filme sobre consequências. O que vemos em cena aconteceu aos milhares e acontece até hoje. A miséria toma conta e em momento algum nos incomodamos com as atitudes criminosas do protagonista. O que nos leva a pensar sobre o olhar que temos de certas situações de desigualdade, criadas por fatores diferentes do que é representado no longa, mas igualmente atuais. No fim, por diferentes razões, assistimos vagalumes morrerem cedo todos os dias, suas luzes se apagarem em cada canto do mundo. O que torna não só o buraco feito por Setsuko, a cidade de Kobe ou mesmo o Japão, mas o mundo inteiro como o verdadeiro Túmulo dos Vagalumes.

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