O Eternauta 1969 (Comix Zone) – Resenha

Segunda versão do maior clássico dos quadrinhos argentinos é um verdadeiro documento histórico

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Ano Publicação Original: 2019
Título Original: El Eternauta 1969 (O Eternauta 1969)
Roteiro: H.G. Oesterheld Arte: Alberto Breccia
Editora: Comix Zone

Um tesouro resgatado que é parte importante não somente da indústria dos quadrinhos, mas também da história da Argentina. Lançado pela primeira vez no Brasil pela editora Comix Zone, O Eternauta 1969 é não somente um elo perdido entre as duas edições originais do clássico O Eternauta – obra mais célebre dos quadrinhos portenhos – mas também um documento e ato político.

Pouco denotada, trata-se de um remake do título original de 1957 publicado pela revista Hora Cero e que consagrou Héctor Germán Oesterheld e Francisco Solano López como dois dos maiores nomes dos quadrinhos da América Latina e mesmo do gênero de ficção científica como um todo, criando um título que apresentou uma verdadeira epopéia ambientada em Buenos Aires, ou seja, tendo a América do Sul e cenários familiares aos leitores locais, revolucionando o mercado.

É o próprio Oesterheld quem assina esta versão publicada em 1969 pela revista Gente, mas desta vez ilustrada por Alberto Breccia – um de seus parceiros mais longevos no mundo dos quadrinhos, com quem também divide a autoria de Mort Cinder e Sherlock Time (este último também lançado por aqui pela Comix Zone). Sob o traço de Breccia, O Eternauta 1969 ganhou contornos mais sombrios.

A trama base é a mesma da versão original: um quadrinista (o próprio Oesterheld, na realidade) é visitado por uma entidade denominada O Eternauta, que vem de um futuro distante para contar-lhe sua história e alerta-lo sobre um fim apocalíptico que se aproxima.

Na narrativa contada pela entidade, uma incessante nevasca passa a cair de forma repentina sobre a cidade de Buenos Aires, matando instantaneamente toda e qualquer forma de vida que tocar. Juan Salvo, que de algum modo virá a se tornar o Eternauta, precisa proteger sua família e amigos do repentino mal, o qual informações vindas das rádios passam a revelar serem causadas por invasores alienígenas.

A principal diferença de argumento está na realidade do combate: enquanto na versão original as grandes potências mundiais fracassaram em combater os alienígenas e somente então estes chegaram a América do Sul, em O Eternauta 1969 os EUA, URSS e outras grandes nações entregaram a América do Sul de bandeja aos inimigos, em uma clara analogia ao entreguismo do governo militar que passava a instaurar-se naquele momento na Argentina.

Censura velada e fim precipitado

O Eternauta 1969, como já dito, não tratou-se de uma continuação (O Eternauta II foi lançado somente na década seguinte), mas de uma releitura do próprio autor quanto à obra original. E seu teor foi, sobretudo, político. Naquele momento, a Argentina, assim como o Brasil, já enfrentava a ditadura militar, que afetaria de forma avassaladora o país e que, em 1977, acabaria com o desaparecimento do próprio Oesterheld, em um dos casos mais emblemáticos de silenciamento de um artista em um regime de opressão e totalitarismo.

O regime do general Juan Carlos Onganía (1966-1970) ficou conhecido como Onganiato e foi marcado pela alta intervenção na liberdade de expressão e, consequentemente, por uma dura presença sobre a opinião pública e os veículos de comunicação. A repressão imprimida por Onganía resultou na série de protestos que ficaram conhecidos como Cordobazo e que, posteriormente, culminaram em sua queda.

O novo Eternauta seguiu as principais premissas de roteiro do original, mas Oesterheld e Breccia carregaram a nova obra com um teor mais político e, consequentemente, critico à ditadura militar. Se no original os teores de diálogo e mensagens estavam mais atrelados ao roteiro científico em si, em O Eternauta 1969 há um bom entendimento nas alusões ao autoritário regime militar e suas posições quanto aos civis e mesmo aos invasores.

Publicado em três páginas a cada edição da revista Gente, O Eternauta 1969 agradou novos fãs e teve boa repercussão inicial, mas passou a colecionar alguns odiadores e, sobre censura da própria publicadora, começou a receber críticas relacionadas ao trabalho de Breccia, caracterizado, sob cartas de “leitores” (depois revelado que tais críticas partiram dos próprios editores), como “ilegível, sombrio demais”, entre outros adjetivos.

Tais críticas, com claro teor subentendido como uma pressão política, fizeram com que mais da metade da estória fosse acelerada e seus capítulos finais levassem ao fim da trama de maneira bastante acelerada e breve. O que é uma pena, pois certamente o arco final ganharia contornos muito mais realistas e poderosos, dando ainda mais autenticidade a esta versão.

A forma como a obra foi finalizada impacta diretamente na experiência do leitor, especialmente de quem já leu os originais: fica, de fato, a sensação de algo faltante, um fim abrupto e que cativa menos que deveria. Por outro lado, dentro do que foi produzido, é uma experiência fantástica presenciar um texto mais maduro de Oesterheld (ainda mais sabendo seu teor e motivação) e os fabulosos traços de Breccia dando uma atmosfera de maior terror e suspense a este clássico das HQs.

Vale ressaltar o trabalho fantástico da Comix Zone, que traz um prefácio importantíssimo para dar todo o contexto da obra e extras que mostram relatos da época, inclusive com recortes da própria revista Gente. A editora presta um grande serviço ao trazer ao Brasil este documento histórico dos quadrinhos. É uma obra atemporal, que sempre dialogará com a sociedade enquanto regimes opressores seguirem a insurgir.

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