Os Olhos de Barthô – Resenha

A sociedade corrompe o homem ou o homem corrompe a sociedade?

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Os Olhos de Barthô – Resenha da HQ de Orlandeli

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Ano Publicação Original: 2019
Título Original: Os Olhos de Barthô
Roteiro e Arte: Orlandeli
Editora: Gambatte

Uma obra poética, tênue e, ao mesmo tempo, um soco no estômago. Em Os Olhos de Barthô, o cartunista e ilustrador Walmir Orlandeli – autor de obras como O Mundo de Yang e a Graphic MSP Chico Bento – Arvorada – nos brinda com uma HQ peculiar e reflexiva.

O quadrinho nos apresenta ao personagem central, Bartholomeu, um garoto que, desde pequeno, fruto de um aparente nascimento indesejado, apresenta uma visão particular sobre o mundo, dotado de ingenuidade e literalidade no modo de compreender as coisas. Barthô se desenvolve como um sujeito grande, forte, silencioso e contemplativo.

Sua condição logo se torna alvo de Nicola, seu pretenso melhor amigo, que enxerga na lealdade e inocência do rapaz a oportunidade de sanar seus problemas por meio da força bruta. A influência de Nicola faz com que Barthô se torne um indivíduo ambíguo, alguém tão perigoso quanto vulnerável, mas que, no fim das contas, apenas busca seu lugar no mundo.

Nas entrelinhas

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Os Olhos de Barthô se vale da poesia – e licença poética – para tratar sobre diversos temas em uma narrativa linear em que nenhuma alegoria necessita ser explícita. Sua temática central é clara, e embora possasse supor a condição (clinicamente existente ou não) de seu protagonista, não é necessário a aplicação de rótulos para que a mensagem final da HQ seja dada.

Os questionamentos trazidos pela estória, embora não sejam muito aprofundados em certo ponto, são bastante pontuais e certeiros quanto às mazelas que observamos atualmente em nossa sociedade – como supostos “paladinos da justiça, cidadãos de bem” detém a dominância sobre o pré-julgamento de indivíduos menos favorecidos e, desse modo, são capazes de destruir vidas. E, também, como a natureza de uma criação pode ser moldada do bem para o mal, mas também do mal para o bem. Como disse Rosseau, “O homem é bom por natureza. É a sociedade que o corrompe”. Mas não é também a sociedade composta pelo homem?

Rosas e espinhos

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Durante toda a HQ, há uma série de analogias sobre a rosa, e sua interpretação (pode ser a mais variada possível). Uma destas leituras, de certo, pode fazer analogia ao próprio Barthô: uma flor de beleza única, que tarda a desabrochar e cujos espinhos machucam aqueles que estão à sua volta, ainda que parte disto esteja em sua própria natureza, mesmo que contra a sua vontade.

Há um ponto de virada em Os Olhos de Barthô – mais precisamente sua sequência final – que determinam o florescer final do personagem. Uma sequência de fatos e diálogos sucintos e profundos, que levam a obra a um outro patamar. A sentença necessária para nos mostrar que mesmo o mais puro dos seres possui suas arestas; que toda rosa tem seus espinhos, e que isso não a torna menos bela.

O que é Os Olhos de Barthô para você?

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Os Olhos de Barthô é o tipo de obra que, por sua narrativa um tanto intimista, se deve refletir de modo muito particular a cada leitor – e assim como o próprio personagem, talvez te faça questionar sua visão de mundo e as pessoas que lhe cercam.

Embora algumas situações de sua primeira metade (como surgimento da Liga) soem destoadas do que se vê na HQ como um todo e possam não envolver tanto o leitor a princípio, a estória amadurece muito após o evento mencionado texto acima, culminando em um belo encerramento e a entrega de um quadrinho bastante original e bonito.

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