Série Freud (Netflix) – Análise Crítica

Uma análise profunda da Série Freud da Netflix. Confira as teorias de Freud encaixadas na série da Netflix de uma forma que você ainda não viu.

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Série Freud (Netflix) – Análise Crítica

Série Freud (Netflix) - Análise Crítica

A série Freud estreou em março de 2020 na plataforma Netflix como uma obra de conteúdo fictício, quase em sua integralidade, que pormenorizadamente consegue aplicar conceitos básicos da psicanálise.

O diretor Marvin Kren, austríaco como o neurologista Freud, busca por meio dos gêneros suspense e horror, demonstrar os nuances da razão e dos instintos dos homens, em um roteiro um tanto quanto fantasioso demais, onde destacam-se poucos fatos verídicos quanto a história do supradito médico, muitas teorias psicológicas e uma fotografia dotada de aspectos sombrios e que causam certo desconforto. 

A história se passa na sociedade extremamente patriarcal de Viena, no ano de 1886. O contexto histórico da época é marcado pelo surgimento de inúmeras teorias nos campos da ciência e da espiritualidade, de modo que, em razão dos pré-conceitos já estabelecidos, as ideias inovadoras eram vistas como espécies de charlatanismo. 

Um ponto imensamente notório na série é a maneira como são retratadas as experiências de hipnose promovidas por Freud. O intenso debate na comunidade cientifica demonstrado na obra ocorreu efetivamente, fazendo com que o neurologista fosse tratado com desprezo e incredulidade. 

É importante destacar que durante seu curso inteiro, a série nos transparece que a principal teoria de Freud era a hipnose, o que é um imenso equívoco. O médico utilizou-se da técnica em questão por pouquíssimo tempo de sua vida, e inclusive, em seu livro Obras completas de Sigmund Freud – volume 11 – Cinco lições de Pscinálise, o autor escreveu: “Tornou sê-me logo enfadonho o hipnotismo, como recurso incerto e algo místico; e quando verifiquei que apesar de todos os esforços não conseguia hipnotizar senão parte de meus doentes, decidi abandoná-lo, tornando o procedimento catártico independente dele. Como não podia modificar à vontade o estado psíquico dos doentes, procurei agir mantendo-os em estado normal”. 

Note-se que a hipnose é uma prática regulamentada pelo Conselho Federal de Psicologia, em que pese sofra muitas críticas. Todavia, o conceito por trás da técnica é descobrir a causa do problema no inconsciente e ressignificar de forma positiva aquele conteúdo, abordagem absolutamente diferente daquela utilizada na série. O personagem fictício de Freud hipnotizava seus pacientes para que esses recordassem o evento traumático e posteriormente, tentava inserir memórias distintas para tratamento ou contava a experiência para o doente, no intuito de analisar o resultado prático, mascarando, portanto, a causa do problema e não trazendo-lhe cura alguma. 

Torno a frisar que poucos os eventos representados na série são verossímeis e ainda os que são, possuem algumas alterações, como por exemplo a quantidade de cocaína utilizada por Freud, que apesar de realmente diluída em água (prática comum com os medicamentos da época), não era em quantidade exorbitante como demonstrada na obra; assim como a paciente principal Fleur Salomé (Ella Rumpf), que supostamente foi uma amiga muito querida do médico, que não possuía quaisquer distúrbios psicológicos e nem era sua paciente. 

Netflix – Série Freud

Série Freud (Netflix) - Análise Crítica

No mais, vale ressaltar que muitas vezes a série possui uma atmosfera “sobrenatural”, contudo se engana quem associa os fatos narrado à demônios, por exemplo, como no momento da descoberta de Táltos (figura mitológica da cultura húngara, semelhante a um shaman, não necessariamente ruim). A obra é voltada totalmente para os aspectos científicos, o que podemos perceber se analisarmos profundamente a personagem Fleur. O Táltos, no contexto explorado pela série, evidencia um transtorno de personalidade e ao adentrar em seu inconsciente, Fleur encontra sua parte mais selvagem, animal, que após compreendida, a liberta e a torna uma mulher mais forte. 

Aliás, a Fleur é a personagem central da obra (e não Freud) e através dela conseguimos perceber exatamente a estrutura da mente humana. Conceitualmente, Freud acreditava que a personalidade era composta de três elementos-chave, quais sejam o Id, o Ego e o Superego

O Id seria o inconsciente dos humanos, composto pelos desejos mais básicos e primitivos. Os impulsos orgânicos que temos tende a produzir o prazer e evitar o desprazer, além de não conhecer a inibição. Na série, notamos que Fleur “quando na forma de Táltos”, se torna incrivelmente agressiva e sua libido aumenta consideravelmente, praticando relações sexuais sem nenhum pudor ou impedimento (o que não era comum na época).

O ego atua como o princípio da realidade, introduzindo a razão pelo retardamento das pulsões de satisfação, através da percepção das possíveis consequências negativas e represálias. Quando o ego entra em ação, a personagem Fleur retoma sua consciência e passa a se comportar de maneira realista e aceitável para a sociedade, como um equilíbrio entre seus impulsos básicos e a realidade. 

E por fim, o superego, que é a parte moral da mente e representa os valores da sociedade, introduzidos nos seres humanos geralmente nas primeiras fases da vida, onde há uma construção de personalidade (fase oral, fase anal, fase fálica e  fase genital – conceitos de Freud para o desenvolvimento psicossexual dos indivíduos, do primeiro ano de vida até a adolescência). Quando a personagem Fleur sente enorme culpa pelos atos cometidos quando está tomada pelo “Id”, percebemos a natural repreensão do comportamento, mesmo que irracional, em razão da necessidade de conduta moral, que a conduz a equilibrar os gestos, pensamentos e palavras, para tentar chegar à perfeição. 

Aliás, se pararmos para pensar um pouco, os mencionados comportamentos são nítidos em todas as nossas ações. Todos buscamos uma forma de perfeição (ou o mais próximo disso), ainda que seja humanamente impossível, justamente porque nosso inconsciente segue os instintos animais mais profundos de cada um de nós e que muitas vezes, tentamos controlar em razão dos princípios morais estabelecidos pela sociedade e transmitidos por nossos pais, professores, entre outros, desde que somos muito pequenos. Quem nunca sofreu com um pensamento ruim na cabeça, uma vontade reprimida e a culpa que notoriamente nos emerge? 

As doenças psicológicas estão intimamente ligadas com algum distúrbio nas mensurações dos três parâmetros, como por exemplo, a histeria, muito mencionada na série, que é o conflito com o ego convertido em sintomas físicos. 

Aliás, a obra aponta abundantemente personagens, além de Fleur, com neuroses, psicoses e perversões (3 formas básicas da teoria psicanalítica dos transtornos mentais), sejam eles catatônicos, histéricos, esquizofrênicos, entre outras psicopatias. Além disso, mostra com verdade como os doentes mentais eram tratados pela medicina da época, com práticas de tortura e muitas vezes, com negligência e ceticismo. 

Série Freud (Netflix) - Análise Crítica

Ademais, a série ainda usa de pequenos artifícios interessantes como denominar os episódios com nomes de doenças psicológicas e inserir conceitos Freudianos em cenas bem curtas, tais como o Complexo de Édipo demonstrado no sonho em que Freud se vê mantendo relações sexuais com sua mãe, após ter matado o próprio pai. Nesse sentido, é importante explicar que a teoria de Édipo está relacionada ao conflito da fase fálica onde as crianças estão aprendendo sobre o prazer e desprazer de contato com seus genitais e, em tese, os meninos desejam ter a mãe só para si nessa fase e não partilhá-la mais com o pai; ao mesmo tempo ele teme que o pai se vingue, castrando-o. O complexo de Édipo representa um importante passo na formação do superego e na socialização dos meninos.

Outra observação interessante é que a suma maioria dos personagens são soldados, onde é possível demonstrar principalmente o lado animal do ser humano e a quantidade de traumas acarretados pelos conflitos morais do Ego e Superego, já que os seres humanos são orientados, por exemplo, a não matarem seus semelhantes, e no caso em comento, os soldados precisam lidar com a necessidade de atuar em desconformidade com os padrões aceitáveis, ainda que sob justificativa. 

Por fim, a série encerra apresentando ao telespectador o método de associação livre, que foi verdadeiramente o método utilizado por Freud durante quase toda sua vida e que é a prática mais conhecida atualmente para tratamentos psicológicos. Consiste, sinteticamente, na cura por meio da fala, onde o paciente dialoga tanto sobre sua vida, os aspectos que o incomodam e os fatos cotidianos que passa a criar uma associação entre o discurso e o sintoma, aprendendo a lidar com seus medos, receios e angústias. 

No fim do último capítulo, Fleur compreende seu “Táltos”, ou seja, seus receios, sua segunda personalidade, seu “Id” e passa a dominá-lo, não precisando mais de Freud. Ela o aconselha a seguir a metodologia de associação livre e a escrever livros sobre os fundamentos descobertos pelo médico, fazendo alusão a todo material incrível que o neurologista Freud deixou para nós. 

Série Freud (Netflix) - Análise Crítica

Após maratonar a série, confesso que fiquei encantada, porém precisei de uma madrugada em claro pensativa para digeri-la. Devo contar que sou formada em direito e estudei muito sobre psicanálise nas aulas de medicina legal, sou uma verdadeira aficionada no assunto, portanto consegui identificar os conceitos primordiais nas cenas, contudo, não sei dizer se alguém que nunca tenha tido contato com o assunto conseguiria associar tais pontos. 

Por conta disso, particularmente acho o roteiro confuso, com muitos indícios de questões sobrenaturais, misturados com teorias da conspiração, guerras, entre outros pontos onde acredito que a psicanálise em si se perca. Em que pese as atuações sejam incríveis – destaque para Robert Finster (Freud), Ella Rumpf (Fleur), George Friedrich (Alfred Kiss) e Anja Kling (Sophia Von Szápáry) – e a atmosfera vitoriana seja muito bem exposta, a série não prende o telespectador nos primeiros capítulos, tornando-se um pouco mais clara e atrativa só a partir do quinto capitulo, e apesar do estilo de fotografia me agradar, particularmente, acredito que não existia necessidade de ter cenas tão pesadas, com tanto sangue e canibalismo como foi retratado. 

De qualquer forma, se você tem interesse em psicanálise, vale a pena assistir de mente aberta a série e decifrar as entrelinhas dessa trama surpreendente. Freud está lá, não como um médico descredibilizado, que caça serial killers e se envolve sexualmente com suas pacientes, mas como profundo percussor de uma das linguagens mais significativas da psicologia, aplicadas do meio mais empírico possível nas personagens.

Confira outras resenhas de séries da Netflix na nossa seção exclusiva aqui no Meta Galáxia.

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