Solanin (Mangá) – Resenha

Inio Asano explora o início da fase adulta e nos conta uma história impar sobre amadurecimento.

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Título Original: Solanin ( ソラニン) | Lançamento no Brasil: Novembro e Dezembro de 2011
EditoraL&PM | Número de Páginas: ED1 216 – Ed2 224 | Preço: 26,90 (cada)
Roteiro: Inio Asano | Arte: Inio Asano | Tradução: Adriana Kazue Sada

SINOPSE

O jovem casal de namorados Meiko e Taneda decide dar uma virada em suas vidas e ir atrás de seus sonhos de música e liberdade. Mas para isso irão se deparar com as cobranças e frustrações do início da vida adulta. Frente ao abismo entre os sonhos e a vida como ela se apresenta, às vezes improvisar é a única saída possível.

SONHOS

Através da sinopse acima, já podemos começar  a ter uma leve ideia do que Solanin vai nos apresentar, porém, a obra vai muito mais longe que isso. Meiko e Taneda são jovens adultos, cada qual por volta de seus vinte e poucos anos. Recém formados na faculdade e cheios de sonhos para encarar a vida adulta, os dois que começaram a namorar ainda na faculdade dão um passo adiante e agora moram juntos em um pequeno apartamento. E para custear essa nova fase de suas vidas, ambos conseguem empregos, porém, ambos estão insatisfeitos com seus trabalhos. 

Ao longo de nossa infância e adolescência somos apresentados a diversos fatores que podem nos condicionar (mesmo sem percebermos) que tudo vai dar certo lá na frente se acreditarmos nos nossos sonhos. Que a fórmula de esforço e de não desistir, vai nos resultar na concretização dos nossos sonhos. Temos  animes, mangás, filmes  e séries que nos passam essa mensagem. E isso é ótimo, ter essa chama para nos guiar e dar sentido a nossas vidas. Porém, por muitas vezes nos são feitas muitas promessas como: se você concluir tal faculdade vai ter uma carreira de sucesso e assim por diante. Mas nem sempre será assim na vida real. Na prática a coisa é bem mais complicada. Em Solanin, vamos ver muito dessa discussão através do roteiro incrível de Inio Asano (Oyasumi Punpun). 

Um bom exemplo disso é o caso de Taneda. Na época da faculdade ele tinha uma banda com mais dois amigos: Kenichi Katou (baixista) e Jirou “Billy” Yamada (bateria). Taneda é o vocalista e guitarrista da banda, que leva o nome de RIOT. Na época da faculdade os três mantinham ensaios constantes no clube da faculdade, mantendo o sonho de um dia levarem a RIOT para ser reconhecida como banda. Mas com o término da faculdade e as obrigações mundanas aparecendo, o trio passou a ensaiar apenas como hobby. 

A banda/ música é uma coisa muito importante para todo o núcleo de personagens de Solanin, pois foi o fato gerador deles terem criados laços e sonhos. Taneda e Meiko se conheceram por conta da banda. Assim como a amizade com Katou e Billy. E também temos mais uma personagem chave: Ai Kotani, que também fazia parte do clube de música da faculdade. É ela quem traz Meiko para o clube e as duas desenvolvem uma bela amizade, sendo que Ai se porta como uma irmã mais velha com a nossa protagonista. Assim fechamos o quinteto de personagens principais que se deparam com a transição da adolescência e o início da fase adulta.

REALIDADE

Ao iniciarmos a fase adulta, muitos de nós sentimos esse baque que os personagens de Solanin passam. Cumprimos os ritos de passagem sejam eles pela escola, cursos, faculdade, para que lá na frente tenhamos a carreira que sempre sonhamos. Criamos a expectativa, mas a realidade não funciona de forma tão mecânica. Suas variáveis vão nos levar muitas vezes a caminhos que jamais pensamos. E assim vamos nos adaptando, afinal, todos temos obrigações e contas. Seja a pessoa que se mudou e agora mora sozinha, ou que está correndo atrás do seu grande sonho. Não importa se o sonho é simples ou quase utópico, sempre surgirão obstáculos. E Asano trabalha isso de forma muito interessante em Solanin, em como a realidade pode ser cruel e esmagadora com os sonhos. Mas que mesmo assim, podemos nos reerguer. 

O quinteto de Solanin exemplifica bem esse assunto. Taneda quer levar a RIOT adiante, mas ele mesmo suprimiu esse sonho por conta das obrigações da vida adulta. Contas, despesas. Apesar dele e Meiko se amarem de forma intensa e verdadeira, essas situações começam a desgastar a vida dos dois. Pois Meiko também está insatisfeita com seu trabalho, mas ela tem um outro fator: ela não sabe o que quer realmente fazer da vida. Ela ainda busca um sonho para si. É um choque pesado entre sonho e realidade, onde os laços do casal vão sendo postos a prova. Ainda mais quando, após uma conversa entre os dois, Taneda resolve dar foco de novo a banda, e assim compõe a música “Solanin”. (Essa música, aliás, tem suma importância para a obra toda).

Katou também quer levar a banda adiante, porém ele mesmo é desleixado e ainda não conseguiu terminar a faculdade. Assim ele vive uma “eterna adolescência” com medo de encarar a vida adulta. Assim como seus companheiros de banda, Billy também quer levar a RIOT a sério, mas ele herdou os negócios da família e agora tem que cuidar de uma farmácia de bairro. E por fim Ai, que se estabilizou em um emprego de vendedora, mas o tempo está passando e ela sente que está estacionada e que seu “prazo de validade” está vencendo. Sabe que precisa achar algo que realmente se encaixe.

SEGUIR EM FRENTE

Meiko, Katou, Billy, Ai e Taneda!

Depois de todos esses pontos que vão nos sendo apresentados, ficamos com a seguinte questão: Mas afinal de contas, o que fazer? Devemos seguir nossos sonhos cegamente, ou desistir e aceitar a realidade? Esse é o grande ponto chave que Inio Asano nos propõe a pensar em Solanin. Por meio do quinteto de personagens vamos poder observar vários desses sonhos entrando em conflito com a  realidade. E quando o autor faz isso, é de uma maneira muito pé no chão, sem envolver nada muito fantasioso. E por conta desse fator, o golpe é ainda mais forte no leitor. Ou seja, “resposta” para essa questão não é tão simples. Isso vai variar de pessoa para pessoa, porque o conceito de sonho e felicidade é muito singular. 

Além das frustrações já citadas, Asano vai criando outras situações de conflito e algumas delas chegando a serem bem trágicas, que colocam os personagens em situações de desespero. E apesar de parecer um clichê, realmente algumas coisas ruins tendem a acontecer antes das coisas melhorarem. É por meio de situações bem complicadas que muitas vezes somos obrigados a amadurecer, por mais que isso possa ser dolorido ou antes do “tempo certo”. Obrigações e cobranças estão por todos os lados, e por algumas ocasiões, a vida acaba não esperando e nem dando tempo para respirar.

Uma coisa que fica bem evidente em Solanin, é que talvez a mensagem principal da obra é exatamente que independente dos sonhos ou frustrações, a vida tem que continuar. Tem que seguir em frente. Não dá pra seguir um sonho de forma tão purista e ingênua, e também não dá para deixar de sonhar, senão a vida perde todo o sentido. Então, o que podemos tentar é buscar um meio termo, onde seguimos em busca dos nossos sonhos, mas cientes que iremos ralar nossos joelhos algumas vezes antes de chegarmos até o topo da escada. 

Extras

Em 2010, o mangá de Solanin ganhou uma adaptação para um filme Live Action que leva o mesmo nome. O filme é muito bom e consegue retratar bem a essência do mangá. Os atores foram muito bem escolhidos, e são idênticos aos desenhos de Asano. Claro que se levado à risca algumas coisas da trama acabaram ficando de fora, assim como outras foram modificadas. Mas isso não chega a ser um problema, afinal é uma adaptação. E o filme em si corresponde às expectativas. Ele funciona muito bem tanto para quem leu o mangá ou quem procura um bom filme de drama. 

Outra curiosidade bem legal é que a música “Solanin” composta por Taneda no mangá possui uma adaptação para música mesmo feita pela banda Asian Kung-Fu Generation (muito conhecida pela música Haruka Kanata de Naruto). A letra da música está no mangá escrito por Asano, e o resultado da adaptação da AKFG é algo espetacular. Uma canção poderosa e cheia de sentimentos. Ler o mangá de Solanin escutando essa música pode facilmente verter o leitor às lágrimas, pois ela casa perfeitamente com a alma da obra.

SOLANIN, VALE A PENA?

Solanin é uma obra-prima dos mangás. Ao longo dos seus 28 capítulos, Inio Asano nos proporciona diversas reflexões sobre a vida, perdas e sonhos. E tudo isso com uma arte de encher os olhos. Seus personagens têm expressões tão únicas, que só de olhar eles sorrindo ou chorando, sabemos que é de verdade. Além dos cenários e toda a composição das páginas que também são um espetáculo. Inio Asano é um gênio. E complementando isso, as edições da L&PM estão bem bonitas e caprichadas, assim propiciando ao leitor uma ótima experiência. Então sim, Solanin vale a pena demais.

A obra é sobre seguir em frente e se readaptar mesmo com tantas dificuldades. É dar adeus ao seu eu de ontem e começar uma nova jornada hoje. E ao final, talvez possamos responder a uma simples e importante pergunta: “Você é feliz de verdade?”


E aí meu caro(a) leitor(a) do Meta Galáxia, espero que vocês tenham gostado da resenha. Solanin é um mangá que marcou muito este que vos escreve. É impossível sair indiferente e não se identificar com algumas situações apresentadas por Asano. Então, aproveite que a L&PM relançou recentemente os dois volumes e corras atrás, pois é uma obra que vale a pena demais. Até o próximo post e forte abraço!

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