Dragon Ball e o problema do clichê inexistente.

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Abertura de Dragon Ball.

Muita gente fala que Dragon Ball é ruim, principalmente, por ser clichê. É um argumento válido para avaliação de obras, afinal, algo para ser interessante, deve ter um toque de inovação, não é? Há, no anime, uma série de coisas que você encontra em diversos outros por aí. Mas afinal, isso é, necessariamente, um defeito?

Significado de clichê

“Clichê, no sentido figurado, é uma ideia já muito batida, uma fórmula muito repetida de falar ou escrever, um chavão. Etimologicamente, a palavra clichê tem origem no francês cliché. São sinônimos da palavra clichê: lugar-comum, repetido, chavão, comum, previsível e repetido.”

Fonte: www.significados.com.br/cliche/

Antes de mais nada, quero dizer que vou usar Dragon Ball como um exemplo base para discutir o clichê num geral e não como uma defesa absoluta sobre a obra de Akyra – que, longe de mim achar que precisa da minha defesa.

O que torna Dragon Ball clichê?

One Piece possuí vários clichês popularizados em Dragon Ball.

Dragon Ball conta com uma grande quantidade de pontos “clássicos”. O maior de todos, reside em seu protagonista, Son Goku. O personagem é a personificação do Shounen. Goku é bondoso, engraçado, burro e tudo mais. Fica furioso quando alguém fere seus amigos e costuma gerar empatia em quem se aproxima dele. Podemos ver tal padrão na maioria dos protagonistas, seja Naruto, Luffy, Ichigo, Natsu, Gon…

Ainda no protagonista, temos o fato de ser sempre ele que decide a favor dos mocinhos. Vários lutam, se sacrificam, mas, no fim, é Goku quem da conta do recado. Nesse quesito, HxH se diferencia um pouco, mas a maioria dos citados anteriormente se encaixam nesse quesito. E, por último, uma coisa mais de roteiro, mas que se aplica aos protagonistas, são as transformações. Evoluções que ajudam o personagem a mudar de patamar de maneira visual e numa tacada só, um plot twist que ajuda a virar lutas aparentemente perdidas.

O desafio de mudar, não mudando

Senhor dos Anéis é um exemplo de popularizador de clichê

“Ah, mas as transformações do anime x não são clichês porque são bem explicadas, diferente de Dragon Ball” – Preguiçoso, Otakinho.

O trecho citado acima é bastante usado na Internet. Muitos esquecem que Dragon Ball veio primeiro que a maioria e desencadeou uma sequência de “cópias”. A industria funciona da seguinte maneira: Você tem um exemplo, um modelo a ser seguido. Quando inicia sua história, possuí um desafio, tem que seguir tal modelo de sucesso, mas ao mesmo tempo precisa ser inovador o suficiente para gerar interesse do público. Afinal, se for pra ver uma cópia do modelo, eu vejo o próprio modelo, certo?

Pra fugir do exemplo de Dragon Ball, vamos à literatura. Quem quer escrever uma história de fantasia hoje em dia, tem que, obrigatoriamente, conhecer “Senhor dos Anéis” – ou qualquer obra da terra-média. Tolkien criou o modelo, a base de sucesso para quem quiser explorar o gênero. Há o desafio, no entanto, de inovar dentro deste modelo, afinal, nem todos possuem a genialidade de Tolkien para criar um “modelo” do zero.

Note que não me refiro a criar um gênero e sim o modelo de sucesso copiado pelos demais.

Com o exemplo, fica fácil, né?

Quando você possuí tais modelos que, invariavelmente, vão acabar influenciando sua história, inicia o processo de torná-la o mais original possível. Dragon Ball não precisava criar explicações incríveis para justificar as transformações, pura e simplesmente pelo fato de que a transformação em sim era a inovação. O mesmo vale pro roteiro, como a explicação das “energias” (Chakra, Nen, Ki, etc.). Cada anime possuí sua “fonte de poder” e há uma necessidade de elaboração desta fonte exatamente para que fique diferente de Dragon Ball.

One Piece, por exemplo, possuí a fonte de poder mais “original”, que são as Akuma No Mi. No entanto, a história bebe bastante da fonte do sistema de sagas utilizado por Akyra Toryama, principalmente no Dragon Ball clássico.

O que torna a história clichê?

A transformação de Gon é um elemento clichê.

No final das contas, considerando o significado de clichê, dá pra dizer que vai da vivência de cada um. Isto porque, se você nunca viu nenhum Shounen, qualquer um que assista trará coisas inovadoras do seu ponto de vista. Agora, se é alguém mais vivido, criado a base de TV Globinho, vai ser mais exigente no quesito inovação em relação ao gênero.

Há também o ponto de vista mais canonico. Como eu disse acima, há os “modelos”. Qualquer um que siga estes modelos, possuí seus elementos clichês.

“Mas a transformação do Gon é muito bem elaborada!” Independente da justificativa, o elemento “transformação de personagem” possuí a mesma utilidade narrativa, sendo assim, um clichê do gênero. Significa que é ruim? Não. Mas inovador? Tão pouco. Sendo assim, todos os elementos que mencionei lá quando falei sobre o Goku, serão clichês, independente do malabarismo que o autor use pra justificar sua utilização. Chegamos a conclusão de que Dragon Ball não é clichê, os demais animes tornaram seus elementos em um.

É ruim?

Fugir do clichê, nem sempre é uma boa escolha.

A necessidade de uma boa inovação se dá, primeiramente, pelo efeito surpresa. Ninguém quer assistir uma história que sabe como vai acabar, não é? Há de se tomar cuidado, entretanto, para não confundir surpresa com frustração. As história, muitas vezes, criam expectativa de um determinado acontecimento, o autor, sabendo disso, precisa criar algo surpreendente. O que seria? Algo melhor!

Agora, se só for diferente pra evitar o obvio, vira frustração.

Vou dar um exemplo aqui, bem recente. Game of Thrones construiu, ao longo de várias temporadas uma ameaça terrível ao mundo chamada “Rei da Noite”. O vilão, despontava facilmente como ameaça máxima da série e seu enfrentamento natural seria com o protagonista dela, Jon Snow. Não só pelo clássico Mocinho x Vilão, Jon e o Rei da Noite tiveram uma construção de rivalidade ao longo dos episódios. O objetivo máximo do protagonista era para-lo.

O que aconteceu? Uma quebra de expectativa gigantesca que fugiu totalmente ao clichê: Jon e Rei da Noite sequer trocaram golpes. No que isso se transformou? Frustração! Aria ter derrotado o vilão foi uma grande surpresa, só que tirada simplesmente do NADA! A personagem, até alguns episódios antes, sequer tinha conhecimento da ameaça.

Respeito mútuo

The Boys satiriza os clichês de filmes de Super-Herói.

Com o exemplo acima, dá para ver que fugir do clichê nem sempre é algo bom se mal construído. A própria série de Game of Thrones fugia bastante do clichê no gênero Fantasia – apesar de beber da fonte de Tolkien – principalmente por matar seus personagens sem dó. Isso facilmente se tornaria um tiro no pé se as mortes fossem feitas somente para surpreender e chocar de maneira gratuita, o que não acontece na maior parte do tempo.

Voltando para Dragon Ball, fica claro que a visão de que o anime é sem história se deve as circunstâncias de na sua época não precisar inovar, elaborar ou surpreender a audiência atual, o anime fez isso com a audiência da época. Fazer comparações é injusto, já que, como dito lá atrás, é mais fácil inovar quando as bases foram criadas. Fica o mérito aos criadores do modelo, da base de sucesso como Akyra e Tolkien, mas também àqueles que foram capazes de inovar, sempre respeitando suas inspirações, algo que muitos não sabem fazer hoje em dia.

Ainda, há diversas obras que fazem paródia de clichês, como, mais recentemente One Punch Man, Mob Psycho 100 e The Boys, mas cada uma de sua maneira. Todas histórias podem lhe dar uma nova visão do assunto.

Valorize os “clichês” (Dragon Ball), sem eles, as “inovações” (One Piece, Naruto, HxH, etc.) talvez nunca saíssem do papel!

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